Tropical - Capítulo 03
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Autor: Lucio Miranda
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Cena 01 - Ilha Tropical (Pequeno Hospital | Leito | Noite)
ϡYara ouve a explicação de Havana sobre o que aconteceu desde a praia até aquele momento.
YARA: Então quer dizer que eu acabei numa praia?
HAVANA: Sim. Foi um completo choque pra mim, te ver naquele estado.
YARA: Eu mesma não esperava estar aqui agora. Pensei que o meu fim seria naquele barco.
HAVANA: Barco? Ah, então você realmente não é uma hóspede aqui da ilha.
YARA: Não. Eu estava num barco de pesca quando a tempestade nos pegou. Nem sabia da existência dessa ilha.
HAVANA: Bom, o pesadelo acabou. Você está a salvo, e mais importante, está medicada.
YARA: Sim. Tanto que agradeço eternamente a sua ajuda...
HAVANA (Sorrindo): Me chamo Havana. E você? Não é muito natural ficar te chamando de "você".
ϡYara em resposta, sorri um pouco envergonhada.
YARA: Me chamo Yara.
HAVANA (Sorrindo): Hum, um nome muito bonito. É um prazer Yara.
YARA (Sorrindo): Igualmente.
HAVANA: Você disse que estava num barco antes de parar aqui, se lembra de mais alguma coisa? De onde veio, de alguém da família?
ϡAo ouvir a pergunta de Havana, Yara rapidamente se lembra do que deixou para trás.
YARA (Surpresa): O meu irmão! Meu Deus! Ele deve estar louco de preocupação. Eu preciso falar com ele.
ϡRapidamente se remexe na cama e tenta se levantar, porém devido a fraqueza e hipotermia, não consegue. Havana tenta acalmá-la.
HAVANA: Calma, você sofreu um trauma sério. Precisa descansar bastante. Deixa que eu cuido disso.
YARA: Eu não quero atrapalhar mais, já basta toda a ajuda que me forneceu.
HAVANA: Acredite, não me atrapalha em nada.
ϡYara mais uma vez desvia o olhar e se sente envergonhada.
YARA: Bem, já que é assim, eu ficaria muito agradecida.
ϡ Havana emana um pequeno sorriso, em seguida pega o celular na bolsa.
Cena 02 - Salvador (Casarão Abandonado | Cômodo vazio | Noite)
ϡPedro adentra o local cabisbaixo. Com os olhos avermelhados devido ao choro, é nítida a sua dor e remorso. Ele caminha até a janela e repousa sobre ela, onde se permite observar o céu.
PEDRO: Eu tinha feito uma promessa pra você mãe... Mas infelizmente como tudo na vida, eu não consegui levar adiante. E agora, eu tô sozinho. Devia ter sido um filho melhor, um irmão melhor, alguém que vocês pudessem se orgulhar. Mas a única coisa que consegui foi ser inconsequente e irresponsável, e agora perdi a única pessoa que ainda me dava motivos para sorrir e continuar.
ϡMais lágrimas invadem seu rosto. Sua dor e melancolia interna eram tão difíceis de suportar, que chorar era a única forma que o rapaz encontrava para colocar pra fora todos esses sentimentos intensos. Porém, repentinamente um som de celular começa a se propagar no ambiente. Pedro vendo que o barulho vinha de seu bolso, pega o aparelho de aparência antiga e hesita entre atender e rejeitar. Mas acaba decidindo atender.
PEDRO: Alô?
VOZ: Boa noite, falo com Pedro Alencar?
PEDRO: Sim ele mesmo, quem tá falando?
VOZ: Eu me chamo Havana Helman, sou proprietária do resort Tropical, que fica ao leste de Salvador. Hoje a tarde aconteceu um evento excepcional aqui, eu acabei encontrando uma jovem afogada na praia e...
PEDRO (Em Choque): Jovem? Qual o nome dela?
HAVANA (Ligação): Prosseguindo, quando ela acordou no hospital, disse se chamar Yara, e que tinha um irmão que se chamava Pedro.
PEDRO (Abrindo um grande sorriso): Sim, ela é a minha irmã. Meu Deus eu não acredito! Isso só pode ser um milagre.
HAVANA (Ligação): Como está a noite agora não dá pra fazer isso, mas amanhã cedo vou enviar um barco para te buscar na costa.
ϡHavana começa a combinar o ponto de encontro do barco com Pedro, que com o passar da conversa começa a chorar de alegria. Assim que se despede e e encerra a chamada, dá um pulo e grita animado.
Cena 03 - Ilha Tropical (Pequeno Hospital | Recepção | Noite)
ϡHavana coloca o celular na bolsa. A porta do local se abre e Flávia preocupada surge.
FLÁVIA (PREOCUPADA): Havana, o que aconteceu?
HAVANA: Flávia? O que você tá fazendo aqui?
FLÁVIA: Eu que te pergunto isso.
ϡHavana solta um suspiro e faz um sinal para a amiga se sentar na cadeira ao seu lado. Flávia rapidamente faz isso.
HAVANA: A história é confusa, mas acredito que você vai entender.
ϡFlávia assente compreendendo. Havana começa a relatar os acontecimentos e conforme isso ocorre, vê a amiga ficar cada vez mais impressionada.
ϡDo outro lado da ilha, em uma cabana simples, uma senhora se senta em uma mesa de esoterismo.
Cena 04 (Cabana | Interior | Noite)
ϡSobre a mesa, algumas velas roxas dissipam incenso no ambiente. Uma bola de cristal se destaca no centro. A senhora coloca a mão sobre a superfície da bola e começa a inspirar e suspirar calmamente.
MALYA (Com os olhos fechados): Sinto uma vibração diferente no ar. Um encontro de almas especiais, e ao mesmo tempo uma alma que está prestes a entrar num caminho tortuoso carregado de muita dor e sofrimento.
ϡEla abre os olhos e se mostra séria.
MALYA: Eu preciso impedir que essa desgraça aconteça!
ϡDeixando em aberto suas intenções, a mulher se levanta e vai para outro cômodo. De maneira discreta a bola de cristal reluz sobre a luz das velas.
Cena 05 (Pequeno Hospital | Recepção)
ϡFlavia está de pé, ela olha para Havana que expressa um olhar cansado.
FLÁVIA: Achou ela na praia? Havana essa história é bizarra.
HAVANA: Flávia eu já disse quatro vezes o que aconteceu. Eu não estou entendendo essa sua reação.
FLÁVIA: Havana! Não é nenhum pouco normal te ver se ausentar das suas responsabilidades de chefe por causa de uma estranha. Podia ter mandado qualquer um dos nossos empregados ficar de olho nela.
HAVANA: Eu sei. Mas achei melhor ficar aqui, precisava de um tempo pra mim. E outra, fui eu que salvei ela, nada mais justo do que ficar aqui e explicar a situação quando ela acordasse. Diferente do que muitos pensam, eu não sou mesquinha e egoísta. É incrível como ultimamente você nunca consegue me entender de verdade. Tudo o que eu faço é absurdo e estranho pra você!
ϡFlávia tenta rebater as afirmações da amiga, mas no calor do momento acaba desistindo. Restando para si apenas o sentimento de chateação.
HAVANA: Bom, agora que ela acordou e eu já falei com o irmão dela, vou descansar um pouco. Boa noite.
ϡDiz e sai andando. Flávia ainda abalada com as palavras da amiga, olha para o outro lado do corredor onde se localizam os leitos. A seriedade permeia sua face.
Cena 06 (Leito | Interior)
ϡA porta do local se abre. Flávia adentra e se direciona até a cama. Ao ver Yara adormecida, a encara de maneira intrigante.
FLÁVIA (Séria): Quem você é? E de que buraco saiu?
ϡYara com uma expressão suave no rosto, continua dormindo tranquilamente. Quanto a Flávia, ela se retira da mesma forma repentina que entrou.
Cena 07 (Rua | Noite)
ϡAndando por uma das ruas que dá acesso ao hotel, Havana se mostra perdida em seus pensamentos.
REMEMBER • INÍCIO
ϡRapidamente, flashes do momento em que salvou Yara invadem sua mente. Em uma linha do tempo objetiva, relembra desde o primeiro olhar que teve sobre a moça, a até mesmo quando a viu abrir os olhos pela primeira vez e lhe encarar de forma confusa. Posteriormente é atingida pelas palavras que disse a Flávia anteriormente.
REMEMBER • OFF
ϡEla para por um instante de andar, e se permite a analisar melhor todos os acontecimentos daquele dia efêmero. Após olhar mais uma vez para trás em direção ao hospital, vira-se de volta e continua caminhando para o hotel.
•••
ϡO sol surge majestosamente no céu da capital baiana, trazendo consigo o início de um novo dia.
Cena 08 - Salvador (Píer | Manhã)
ϡAndando sobre a superfície de concreto do local, Pedro vai em direção a um barco enviado por Havana. Antes de adentrar a embarcação, olha para a cidade atrás de si e em seguida para o mar à sua frente.
PEDRO (Receoso): Chegou a hora. Seja o que Deus quiser.
ϡEle adentra a embarcação, que parte em direção a ilha.
Cena 09 - Ilha Tropical (Tropical Center | Escritório de Havana | Manhã)
ϡFlávia adentra a sala e encontra a amiga observando a paisagem na janela.
FLÁVIA: Você mandou me chamarem?
ϡHavana se vira e a observa.
HAVANA: Sim. Eu na verdade queria me desculpar com você.
ϡFlávia se surpreende.
FLÁVIA (Surpresa): Se desculpar?
HAVANA: É. Eu ultimamente ando sendo muito injusta e grossa com você. Desconto todas as minhas frustrações em alguém que só está tentando me ajudar.
FLÁVIA: Não se preocupe, tá tudo bem.
HAVANA: Não. Não está. Eu não tenho o direito de fazer isso, ainda mais com você. Uma amiga de tantos anos que me ajudou a formar a mulher que sou hoje.
ϡDiz se aproximando de Flávia. Ambas ficam frente a frente e se abraçam. De início Flávia se vê em inércia, completamente surpresa com o ato da amiga, mas depois retribui. Ao se separarem, Havana esboça um sorriso.
FLÁVIA: Tá, eu gostei muito do abraço e das desculpas, mas isso não é bem a sua cara. O que mudou de ontem pra hoje?
HAVANA: Salvar uma pessoa e depois vê-la me agradecer do fundo do coração me ajudou a refletir melhor algumas coisas.
ϡQuando percebe de quem a amiga estava se referindo, Flávia desvia um pouco o olhar. Mas disfarça.
FLÁVIA: Entendi...
HAVANA: Bom, agora preciso ir. O irmão da Yara deve estar chegando e eu gostaria de recebê-lo pessoalmente. Com licença.
ϡHavana se retira e Flávia permanece imóvel. Ela desmancha a falsa expressão suave e transveste uma de decepção.
(FIM DO CAPÍTULO)
Créditos:
13/04/2022
©️ GS Literatura.