Tropical - Capítulo 01
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Autor: Lucio Miranda
Abertura:
ϡSobre as águas atormentadas do mar, o barulho assustador e preocupante dos trovões chamam a atenção. Logo alguns feixes de luzes provocadas por relâmpagos iluminam a escuridão das ondas agitadas. Sobre a tormenta um barco de aparência humilde e precária repentinamente se destaca, e a partir daí entende-se que seja lá quem estiver a bordo, não introduziu a tempestade por vontade própria.
Cena 01 (Barco | Interior)
ϡDentro da cabine, um homem de meia idade e vestimentas de pesca, conduzia a embarcação com dificuldade. Uma moça que também se encontrava no ambiente, entrava em um profundo estado de desespero.
YARA: A GENTE VAI AFUNDAR DESSE JEITO! EU NÃO QUERO MORRER!
ϡGrita enquanto se segura em uma barra de ferro. O homem retruca em um tom não muito agradável.
HOMEM: E o que você quer que eu faça? Estamos sem saída!
ϡA mulher fica sem reação e apenas se limita a permanecer no lugar, desejando internamente que tudo aquilo passe o mais rápido possível. No auge do êxtase, tira de dentro do bolso da saia um pingente de cruz e fecha a mão sobre o amuleto.
YARA (Pensamento): "Deus... Se o senhor estiver mesmo aí, por favor, não me deixa morrer, não agora."
ϡCom o balançar violento do barco, pouco a pouco, a noção dos acontecimentos vão se perdendo, até chegar ao ponto de se ter apenas uma visão clara do barco flutuando sobre as imensas ondas carregadas de fúria.
ϡ ALGUMAS HORAS ANTES.
SALVADOR • BAHIA - 2021
ϡBarcos pesqueiros, feiras de frutos do mar, barracas de comida praiana, hotéis e restaurantes temáticos. Essa era a vista do litoral da capital baiana, um verdadeiro santuário paradisíaco para turistas e pessoas da elite. Porém tal realidade carecia para a maioria da população, sobretudo para aqueles que eram mais humildes. Numa região mais humilde da cidade, um casarão de aparência precária e visivelmente abandonado, se destaca.
Cena 02 (Casarão | Interior | Manhã)
ϡDentro do ambiente inóspito, algumas pessoas se organizavam.
HOMEM: Esse casarão está abandonado há anos. Tenho certeza que a polícia e a prefeitura vão deixar pra lá.
MULHER: É bom mesmo, porque eu não aguento mais ficar mudando de lugar a cada reintegração de posse.
ϡOs outros presentes balançam a cabeça concordando com a mulher. Mais ao longe, uma moça que está mais afastada dos demais se destaca. Seu rosto apresenta tristeza e mágoa profunda, um outro homem se aproxima e lhe abraça por trás.
PEDRO: Você precisa sair dessa depre, Yara. Não aguento te ver assim.
ϡA mulher pela primeira vez demonstra outra emoção. Que também não é lá muito animadora.
YARA (Chateada): Me animar como Pedro? Olha só pra isso aqui... Pra gente. Estamos há cinco anos nessa mesma rotina. Conseguimos nosso cantinho, vem a polícia e nos expulsa; Quando ficamos estáveis, surge alguém do quinto dos infernos e reivindica a propriedade...
PEDRO: Eu sei que é difícil. Desanimador, mas não podemos deixar de lutar.
YARA: Aí é que tá. Eu já cansei de lutar, de dormir sem saber se vou ter o que comer no dia seguinte.
ϡPedro fica sem reação. Palavras não eram mais suficientes para controlar o desânimo de Yara, então o homem apenas permanece em silêncio.
YARA: Enfim... Eu vou ver com o Bento como vai funcionar essa história de pesca. Depois a gente se fala.
ϡSe desgruda do amigo e caminha até o grupo no meio do salão.
•••
ϡLonge do clima precário e depressivo da cidade, e sobre as águas cristalinas do mar, uma ilha de aparência paradisíaca chama atenção, juntamente com seus três edifícios luxuosos.
Cena 03 - Ilha Tropical (Hotel Tropical Center | Interior | Manhã)
ϡSobre o vidro temperado da mesa, se destaca uma verdadeira variedade de alimentos característicos para um bom café da manhã. Sobre a cabeceira da mesa, se encontra uma mulher com um tablet em uma mão, e uma xícara de café na outra. Sua feição demonstra cansaço e desânimo. Logo outra mulher surge no local e corta o clima monótono.
FLÁVIA: De novo você com essa cara de enterro, Havana?
HAVANA: É a minha cara de todas as manhãs, Flávia.
FLÁVIA: Exatamente. Há pelo menos um ano, todos os dias você se mantém nesse calvário. Como sua amiga digo que é torturante te ver desse jeito.
ϡSem paciência para aturar mais uma seção de conselhos por parte de Flávia. Havana coloca a xícara sobre a mesa, e desvia sua atenção para a mulher.
HAVANA: E você quer que eu faça o quê? Saia por aí dançando hula? Que fique forçando um enorme sorriso pra todo mundo ver que: "Olha, fulana tá feliz e radiante". Francamente... Eu tô a ponto de comprar uma passagem só de ida pro outro lado do mundo só pra não precisar ficar aqui ouvindo seus conselhos idiotas de auto ajuda.
ϡApós colocar pra fora tudo o que sentia, Havana se levanta e sai andando rumo a porta de saída.
FLÁVIA: Pra onde você vai?
HAVANA: Andar por aí. Será que pelo menos isso você vai me deixar fazer em paz?
ϡPergunta mantendo uma expressão irritada. Flávia não responde.
Cena 04 (Hotel 3 | Quarto | Manhã)
ϡUma jovem dorme profundamente. Porém tem seu momento interrompido quando a porta se abre e um mordomo carregando uma bandeja de café adentra o local de uma forma um tanto escandalosa, acordando-a posteriormente.
ISABELLA - Lucas... Quantas vezes eu já disse pra bater na porta antes de entrar?
ϡBalbucia sonolenta.
LUCAS: Ordens expressas da sua mãe, estou apenas fazendo o meu trabalho.
ISABELLA: Nossa e bater na porta é algo muito difícil de fazer né?
LUCAS: Agradeça a Deus que foi eu. Do jeito que a dona Flávia tá, era capaz de subir aqui e te acordar a base d'água fria mesmo.
ISABELLA: E o que foi dessa vez?
LUCAS: O que você acha? O de sempre né. A patroa desconta a raiva nela, e ela em nós...
ISABELLA: Ai, ai... A mamãe não aprende mesmo.
LUCAS: Bom, vou atender os outros quartos. Qualquer coisa é só chamar no interfone.
ϡLucas se retira e Isabella fica pensativa.
Cena 05 (Píer | Manhã)
ϡSentada na borda do píer, e com os olhos fixos nas águas do mar, Havana fica reflexiva sobre sua última discussão com Flávia. Com uma feição de desânimo, olha para os lados e percebe que está completamente sozinha no local. Ao voltar seu olhar para o mar novamente, algumas lágrimas escapam de seus olhos.
HAVANA: Que motivos eu teria para sair esbanjando felicidade? Acho que já foi o tempo de acreditar em contos de fadas...
ϡ Seu momento de melancolia é tão intenso, que nem ao menos percebe uma tempestade começar a se formar ao longe.
Cena 06 - Litoral de Salvador (Cais | Início da Tarde).
ϡSobre a estrutura de concreto que se estende por uma parte do mar, Yara caminha de maneira calma. Portando um traje leve e característico do clima da região, segue até um dos barcos que se encontra parado num ancoradouro. Antes que pudesse adentrar a embarcação, a voz de Pedro faz ela parar.
PEDRO: Yara! Aonde você vai?
ϡQuestiona se aproximando.
YARA: O pessoal do casarão vai fazer uma pesca e eu vou junto. Talvez consiga pegar alguma coisa pra vender.
PEDRO: Com essa chuva que tá pra se formar? Você ficou louca?
YARA: Louca eu estou de ficar aqui parada esperando que algo milagroso aconteça.
PEDRO: Yara...
YARA: Olha Pedro eu não quero discutir. Depois a gente se fala.
ϡAntes que o rapaz pudesse argumentar mais alguma coisa, Yara adentra o barco, que parte rumo à uma colônia de pesca.
ϡDe volta a ilha, uma enorme concentração de nuvens escuras chama a atenção. Alguns raios e trovões começam a se fazer presentes no ambiente.
Cena 07 (Píer | Tarde)
ϡAinda sentada sobre o píer, cabisbaixa, Havana só percebe a tempestade se formando quando algumas gotas de água começam a cair do céu junto a uma enorme ventania que remexe seus cabelos.
HAVANA: Céus... O que eu fiz? Como eu não vi isso?
ϡCom o passar dos segundos, uma chuva forte começa. Percebendo que seria inviável chegar até a área do hotel em segurança, a mulher corre em direção a uma casa de barcos próxima.
Cena 08 - Mar Aberto (Barco | Interior)
ϡPercebendo a chuva e também que estão muito afastados dos demais barcos, Yara resolve confrontar o capitão.
YARA: Moço, o senhor não acha que estamos muito longe da costa não?
ϡO homem que estava concentrado na pesca, enfim percebe a gravidade da situação.
HOMEM: Meu Deus... Acabei me distraindo.
YARA: A ponto de não perceber uma tempestade se formando? Não é possível... Vamos, nos tire daqui!
ϡSem perder tempo o homem corre até a cabine de comando. Yara o segue. Enquanto isso do lado de fora, a tempestade os alcança e junto trás consigo fortes ventanias e diversas ondas enormes. Conforme tentam sair, mais afundo adentram a tempestade.
Cena 09 (Cabine | Interior)
ϡEm completo desespero, Yara grita enquanto se segura em uma barra de ferro.
YARA: A GENTE VAI AFUNDAR DESSE JEITO! EU NÃO QUERO MORRER!
HOMEM: E o que você quer que eu faça? Estamos sem saída!
ϡEm choque e imóvel, Yara fecha os olhos. No auge do êxtase, tira de dentro do bolso da saia um pingente e fecha a mão sobre o amuleto.
YARA (Pensamento): Deus... Se o senhor estiver mesmo aí, por favor, não me deixa morrer, não agora.
ϡDe repente, um som estrondoso invade o ambiente. Yara se assusta, em sua face permeia uma expressão de horror.
•••
ϡNa ilha, a tempestade finalmente vai diminuindo até parar. A partir daí só resta um silêncio assustador e exalado de preocupação.
Cena 10 (Casa de Barcos | Exterior)
ϡ Momentos depois, após a tempestade passar, Havana sai da casa de barcos e caminha pelo píer. Ao olhar a região em volta, percebe um rastro de destruição. E ao olhar a área da praia, seus olhos se arregalaram. Sobre a areia se encontrava o corpo de uma mulher.
HAVANA (Pasma): Meu Deus...
ϡColoca a mão na boca em sinal de choque.
(FIM DO CAPÍTULO)
Créditos:
11/04/2022
©️ GS Literatura.