Três Vidas - Capítulo 37
Abertura:
Cena 01 (Casa de Valentim/Sala/Interior/Noite)
⎳Dália chega em casa com Melissa e encontra sua família à sua espera.
CAPITU: Tá chegando só agora da floricultura, Dália?
DÁLIA: Eu fui passear um pouco com a Mel, ela tava precisando.
INDIRA: E onde o Ronny se enfiou? Ele não apareceu na padaria hoje. A gente já cansou de ligar para esse menino e nada!
MARGARET: Você falou com ele, Dália?
AÇUCENA: Falou o quê?
⎳Dália respira fundo e se abaixa, ficando de frente para Melissa.
DÁLIA: Meu amor, vai lá pro quarto que essa conversa agora é de adulto.
⎳Melissa obedece a mãe e sai.
DÁLIA: Eu queria não ter que contar, mas vocês precisam saber.
CAPITU: Você tá me deixando preocupada.
DÁLIA (Séria): Eu coloquei o Ronny contra a parede e ele me confessou tudo... Além de roubar a padaria...
INDIRA (Espantada): Roubar a padaria?!
DÁLIA (Tensa): O Ronny me confessou que ele foi o responsável por... Assaltar a padaria no dia da morte do nosso pai. Ele foi o bandido que matou o Valentim!
⎳Todas ficam pasmas com a revelação.
Cena 02 (Angra dos Reis/Casa de Praia/Interior)
⎳Maitê e Charles chegam em casa.
MAITÊ (Chamando): Calebe, vem ver o que nós trouxemos para você.
⎳Ela procura pelo garoto, mas não o acha. Maitê nota o papel deixado sobre a mesa e o pega. Ela lê rapidamente e antes mesmo que possa terminar, cai no chão aos prantos. Charles vai até ela correndo.
MAITÊ (Desesperada): Ai, meu Deus, não...
CHARLES (Preocupado): O que aconteceu, Maitê?!
⎳Charles toma o papel da mão dela e o lê. O homem rapidamente abraça Maitê e tenta consolá-la.
MAITÊ (Chorando): ELE NÃO PODE TER FEITO ISSO, CHARLES! Não pode!
CHARLES (Aflito): Calma, Maitê, nós vamos encontrá-lo. Ele não pode ter ido muito longe!
Cena 03 (Casa de Valentim/Interior)
CAPITU (Pasma): O quê?
DÁLIA (Triste): Ontem eu acompanhei o Ronny até a delegacia e ele confessou tudo para polícia. Agora tá lá atrás das grades aguardando o julgamento.
AÇUCENA (Furiosa): Eu avisei para vocês, não foi?! Eu disse que ele era um bandido! Eu sabia que tinha um motivo para eu não ir com a cara dele!
INDIRA (Nervosa): Todo esse ódio agora não adianta, Açucena! Depois de anos, o assassino do Valentim finalmente tá preso!
MARGARET (Chocada): Como esse garoto pôde ter sido tão cara de pau, minha Nossa Senhora... Ele trabalhou com a gente esse tempo todo, frequentava nossa casa...
CAPITU (Chorando): Ele matou o meu pai na minha frente, mãe! Quando eu vi ele pela primeira vez eu sabia que o conhecia de algum lugar, mas como eu não fui capaz de reconhecer, meu Deus?!
DÁLIA: Eu tenho todos os motivos do mundo para ter raiva dele e não quero bancar a advogada... Mas eu vi nos olhos do Ronny que ele está arrependido de verdade. Acima de tudo, ele é pai da Mel. Eu quero que ele pague tanto quanto vocês, mas entrego nas mãos da justiça.
INDIRA: Eu concordo com você, Dália. O Ronny ainda é novo, ele pode reconstruir a vida dele depois que sair da cadeia...
AÇUCENA: Eu podia desejar o pior para ele, mas não vou. Eu já passei tempo o suficiente presa para saber o inferno que é aquele lugar. Ficar atrás das grades já é um castigo suficiente para ele.
CAPITU (Chorando): Eu nunca vou conseguir perdoar esse assassino! O fato dele se entregar não muda em nada a memória que eu tenho de ver o meu pai morrer nos meus braços e implorar pela vida!
⎳Capitu vai correndo até seu quarto, e as mulheres se olham consternadas.
Cena 04 (Casa de Praia/Interior/Manhã)
⎳O sol desponta no horizonte. Sentada no sofá, Maitê se aflige com o silêncio. Bernardo também está no local.
MAITÊ (Agoniada): Eu não aguento mais essa falta de notícias. Eles precisam encontrar o Calebe!
BERNARDO (Tenso): Eu estou tão ansioso quanto você, Maitê! O Charles já deve estar voltando.
⎳Abatido, Charles entra no local acompanhado de um bombeiro.
MAITÊ (Aflita): E então?!
BOMBEIRO: Nós encontramos um corpo numa praia a alguns quilômetros daqui, e o seu marido reconheceu como sendo o seu sobrinho. Eu sinto muito, senhora...
MAITÊ (Chorando/Incrédula): Como assim corpo?! Cadê o Calebe?! EU QUERO O MEU SOBRINHO!
⎳Charles abraça a esposa, que se sente completamente fragilizada. Bernardo esfrega os dedos nos olhos e corre até a varanda, tendo dificuldades para respirar. Ele toma fôlego e encara o mar chorando, sem acreditar na notícia.
Cena 05 (Apartamento/Interior)
⎳Juan recebe uma ligação de um número desconhecido e atende rapidamente.
JUAN: Alô? Charles, que bom que ligou. Você sabe do Calebe? Ele me mandou um áudio ontem e depois não falou mais nada... (Atônito): O Calebe o quê?!
⎳Ao receber a notícia, Juan não consegue se segurar e deixa o celular cair no chão. O menino se mantém imóvel, e seus olhos lacrimejam.
DIA SEGUINTE.
Cena 06 (Cemitério/Manhã)
⎳O dia amanhece cinza, úmido e sem vida. Algumas pessoas acompanham o funeral de Calebe, entre elas amigos, colegas e a família do garoto. Maitê e Enrico caminham ao lado do caixão. O empresário usa óculos escuros, tentando se manter firme, e é acompanhado por Allana, enquanto Maitê anda juntamente com Charles. Logo atrás vem Juan, que sofre a perda do namorado. Dália segue com Bernardo.
DÁLIA (Triste): Eu sinto muito, Bernardo. Eu sei o quanto você amava seu irmão.
BERNARDO (Abatido): Era quase como um filho para mim. Eu queria poder ter ajudado ele...
DÁLIA: Infelizmente foi uma escolha dele. Seu irmão acreditava que esse era o único caminho.
BERNARDO: É isso que me assombra. Calebe acreditava que o único caminho capaz de lhe trazer felicidade era a morte, mas enquanto ele tava se afogando naquele mar, com certeza percebeu que isso não traria felicidade nenhuma... Sempre tem um outro caminho além da morte...
⎳Dália passa a mão pelo ombro do homem tentando dar apoio. Açucena caminha afastada da multidão para não ser vista por Enrico, e Capitu a acompanha.
CAPITU: Então você estava ligada a esse menino muito mais do que eu pensava...
AÇUCENA: Antes de morrer o Calebe me ajudou muito entregando o Enrico. Eu só fico pensando se essa pressão que eu fiz em cima dele não o tenha induzido a fazer o que fez.
CAPITU: Você sabe que não. Mas é muito triste que vocês tenham se aproximado só no fim da vida dele. Ele parecia ser um menino muito bom.
AÇUCENA: E era. Lamento por ele ter tido o Enrico como pai.
⎳Giovanna Lara se aproxima de Pietro.
GIOVANNA: Eu sinto muito pelo Calebe...
PIETRO (Desolado): E eu sinto muito por tudo que fiz com você, Giovanna...
GIOVANNA: São águas passadas, Pietro.
PIETRO: Ter que acompanhar o enterro do meu próprio irmão só me faz entender o quanto a vida é curta. Eu não quero ter que morrer me sentindo culpado pelas coisas que fiz.
GIOVANNA: Eu te perdoo sim, mas não liga para isso agora...
⎳Eles chegam ao local do sepultamento, e um padre lê a bíblia e discursa.
PADRE: Hoje nos despedimos de um jovem gentil, amoroso, querido por todos ao seu redor, mas que infelizmente não conseguiu enxergar a beleza na vida. Que Deus possa perdoar a sua alma...
⎳O caixão começa a ser enterrado, e as pessoas se aproximam jogando flores sobre ele. Com o passar do tempo, a multidão se dispersa, indo embora do funeral. Juan não consegue dizer nada, e Maitê o abraça calorosamente. O menino deixa uma rosa sobre a sepultura e vai embora junto com Maitê.
DÁLIA: Eu vou te esperar lá fora, Bernardo. Leva o tempo que precisar.
⎳Dália dá um beijo na bochecha de Bernardo e se retira, restando apenas ele e Enrico.
BERNARDO (Abatido): Está feliz com essa situação, Enrico?
ENRICO: Como você pode dizer isso no funeral do meu filho?
BERNARDO: Você deve estar se sentindo muito culpado, não é?
ENRICO: Eu não tenho nada para me culpar.
BERNARDO: Você sabe muito bem a culpa que você carrega. O meu irmão foi mais uma vítima sua. Ele tentou muito lutar contra você, mas terminou da mesma forma que a minha mãe e a Natalie...
ENRICO (Tenso): Lava a sua boca antes de querer me acusar, Bernardo! Respeita o meu luto!
BERNARDO (Alterado): Eu não acredito em nada que venha de você! Eu não acredito que você seja capaz de sofrer pela morte de um filho!
ENRICO: Você acha que eu sou o quê? Eu sou um ser humano! E não é a ordem natural das coisas um ser humano ter que enterrar o próprio filho!
⎳Enrico retira seus óculos e revela seus olhos vermelhos e cansados de tanto chorar.
ENRICO (Exaltado): Eu estou sofrendo mais do que qualquer um aqui!
BERNARDO (Sério): Eu imagino porquê. Deve ser muito difícil olhar pro caixão do seu filho e saber que as suas atitudes o levaram a cometer isso. Foi como se você tivesse disparado um tiro no peito do Calebe. Eu acredito que você ainda vai pagar por tudo que fez e não estou falando da justiça divina, você vai pagar por tudo que fez ainda em vida. Você não vai morrer sem antes sofrer muito, pai!
⎳Ele vai embora, deixando seu pai sozinho. Enrico não se contém e começa a chorar desesperadamente. O homem se põe de joelhos em frente a lápide do filho.
ENRICO (Chorando): Eu não queria, Calebe... Não queria!
Cena 07 (Bar/Interior/Fim de Tarde)
⎳Enrico está sentado à beira de um balcão. O garçom serve uma dose de uísque pro homem, que vira tudo na boca rapidamente.
ENRICO: Me dá outra aí. Hoje eu só saio daqui arrastado!
⎳O garçom obedece. Enrico toma outra dose, quando ouve alguém o chamar.
VOZ: Eu sabia que te encontraria aqui, Enrico.
⎳Enrico fica gélido e olha para o lado rapidamente.
AÇUCENA (Sorrindo): O mesmo bar que a gente se conheceu no Carnaval de 2017... Você não acha tudo isso uma grande ironia?
⎳Açucena debocha, e Enrico encara ela em pânico.
ENRICO (Narrando): Eu nunca me senti tão indefeso antes. Aquela mulher representava a minha derrocada!
(FIM DO CAPÍTULO)
Créditos:
15/11/2022
© GS Literatura.