Três Vidas - Capítulo 36
Abertura:
Cena 01 (Casa de Ronny/Interior/Tarde)
DÁLIA (Incrédula): O que você tá me falando, Ronny?!
RONNY (Chorando): Perdoa, Dália!
⎳Dália avança com violência em Ronny e dá diversos tapas no peito do homem, que tenta se defender.
RONNY (Nervoso): Eu me arrependi!
DÁLIA (Histérica): SE ARREPENDEU?! Eu tive uma filha com você, te coloquei dentro da minha família e esse tempo todo você era o assassino do meu pai!
RONNY (Chorando): Eu juro que eu não queria fazer isso! Eu me arrependo desde que apertei o gatilho!
DÁLIA (Chorando): Seu arrependimento não serve de nada! Depois da morte do meu pai tudo na minha família mudou, nós tivemos que nos virar sozinhas. Seu arrependimento não cura o trauma que a Capitu sofreu naquele dia, não cura a dor da perda de um pai!
RONNY (Chorando): Mas eu te dei a Mel, ela foi a melhor coisa que te aconteceu!
DÁLIA: Não usa a Mel para fazer chantagem emocional, você nunca quis ela, nunca quis um filho!
RONNY (Chorando): Olha para mim, Dália. Eu sou pobre, preto, favelado... roubava para ter dinheiro para comer. Tu acha mesmo que naquela condição eu ia querer uma filha?! Mas tu me deu um emprego, acreditou em mim. Hoje a Mel é a coisa que eu mais amo nesse mundo, e você não pode reclamar de mim como pai.
DÁLIA: Eu acreditei em você como pai da minha filha, mas nunca como pessoa! Se eu soubesse que você era um assassino, eu teria dito para Mel que o pai dela morreu! Bem que a Açucena sempre me disse que você era um bandido, mas eu burra quis te defender!
RONNY: Eu era um bandido, mas não sou mais, pô! Eu também sou humano, tu acha que eu não senti peso na consciência esse tempo todo por te esconder uma parada dessa? É óbvio que eu senti.
DÁLIA: Então por que você não se entregou para polícia? Por que não fez isso quando teve chance?
RONNY (Chorando): Porque eu não queria dar esse desgosto para minha filha. Eu sei muito bem o que foi crescer com um pai presidiário, e uma mãe que tinha que ralar o dia todo para ter o que comer em casa.
DÁLIA (Séria): Se você quer mesmo me convencer desse arrependimento, se entrega para polícia e faz justiça pela morte do meu pai.
RONNY (Aflito): Eu não posso fazer isso, Dália... Eu não quero ir preso!
DÁLIA: É assim que você quer provar que não queria matar o Valentim?
RONNY: Tenta me entender, eu não quero ficar atrás das grades. Você quer que a Mel fique anos sem me ver?
DÁLIA (Séria): Pois se você não se entregar, eu nunca mais deixo você chegar perto da minha filha, Ronny!
⎳Ronny pensa por um momento e abaixa a cabeça.
RONNY (Abatido): Eu me entrego, mas eu quero poder me despedir da Mel. Isso tu não pode me negar, Dália.
Cena 02 (Apartamento de Maitê/Quarto/Interior)
⎳Calebe e Juan conversam sentados na cama.
JUAN: É claro que eu não me importo se tu for sozinho para Angra, você tá mesmo precisando de espaço.
CALEBE: Eu sabia que tu ia entender. É por pouco tempo.
JUAN (Sorrindo): Eu lembro de quando a gente foi para lá juntos. Vou sentir muita saudade e ficar esperando que tu volte logo!
CALEBE: Eu também vou sentir saudades, Juan. Muita...
JUAN: Mas a gente pode matar essa saudade antes de tu ir. Você tá sozinho aqui, né?
CALEBE: Tô...
JUAN (Sorrindo): Então vem cá, vida!
⎳Ele puxa Calebe pela nuca, e os dois dão um beijo quente. Juan lentamente retira a blusa de Calebe, e o menino faz o mesmo com o namorado. Juan se deita na cama.
JUAN (Ofegante): Eu te amo, Calebe!
CALEBE: Eu também te amo, Juan!
Cena 03 (Casa de Valentim/Quarto/Interior)
⎳Ronny entra no quarto de Melissa e a encontra sobre a cama, brincando com uma boneca. Ao ver o pai, a menina corre até ele.
MELISSA (Alegre): Papai!
RONNY: Oi, Mel. Eu tava com saudade!
MELISSA (Rindo): Mas eu te vi ontem.
RONNY (Sorrindo): E eu não posso sentir saudade mesmo assim não, hein?
⎳Ronny pega na mão de Melissa, e os dois se sentam na cama.
RONNY: Eu tenho uma coisa para te falar, filha. É que o papai vai fazer uma viagem...
MELISSA (Sorrindo): Uma viagem?! Eu vou também? E a mamãe?
RONNY: Não, filha. Infelizmente eu vou sozinho. É uma viagem que vai durar muito tempo, por isso eu quero me despedir de você.
MELISSA (Triste): Muito tempo? Mas quem vai brincar comigo e me levar para passear? Quem vai ficar comigo quando minha mãe não puder?
RONNY (Lacrimejando): Eu vou sentir muita falta disso, Mel, mas você tem uma família maravilhosa, que vai poder fazer todas essas coisas por mim.
MELISSA (Triste): Mas eu não quero ficar sem você!
RONNY: Eu também não quero... Me dá um abraço, filha?
⎳Sem pensar duas vezes, a menina dá um abraço apertado no pai.
MELISSA (Chorando): Eu vou sentir sua falta, pai!
RONNY (Abalado): Eu também vou sentir sua falta, filha. Mas com o tempo você vai entender que eu tô fazendo o certo.
⎳Ronny vê Dália na porta do quarto emocionada assistindo à cena. Os dois se encaram, e Ronny entende o recado.
Cena 04 (Delegacia/Interior)
⎳Dália e Ronny aguardam na recepção, quando um homem os chama. Ronny entra na sala do delegado.
DELEGADO: Muito bem, rapaz, o que te traz aqui?
RONNY (Nervoso): Eu vim confessar um crime, delegado.
DELEGADO: Que tipo de crime?
RONNY (Tenso): Eu... Eu fui o responsável pela morte de um homem: Valentim de Oliveira!
⎳O delegado o olha seriamente. Logo após, Dália vê Ronny saindo da sala algemado, guiado por um policial em direção à cela. Ronny olha para trás e também vê Dália que deixa uma lágrima cair.
Cena 05 (Apartamento de Maitê/Interior/Noite)
⎳Calebe está largado no sofá, quando sua tia e Charles chegam juntos.
CALEBE: Tia, eu quero ir para Angra com vocês!
MAITÊ (Sorrindo): Que bom, Calebe! Então arruma sua bolsa, a gente vai amanhã bem cedo.
⎳As horas passam depressa e logo a manhã chega. Os três aparecem em um veículo dirigido por Charles, o carro corre pela estrada. Algumas horas depois, eles chegam na casa de praia e lá ajeitam suas coisas. Ao longo do dia, eles vão à praia e passam muitos momentos rindo juntos, até o cair da tarde.
Cena 06 (Casa de Praia/Sala/Interior)
⎳Calebe está com um fone de ouvido mexendo no celular, e sua tia surge na sala arrumada.
MAITÊ: Nós vamos passear lá na cidade. Tem certeza que não quer vir?
CALEBE: Aproveita seu momento sozinha com o Charles, não quero atrapalhar, tia.
MAITÊ: Ô, meu amor, você nunca atrapalha!
⎳Maitê vai até o sobrinho e lhe dá um abraço apertado. Charles aparece.
MAITÊ (Sorrindo): Eu te amo, muito, muito, muito!
CALEBE (Rindo): Também te amo, tia!
CHARLES: Pronta, Maitê?
MAITÊ: Claro, vamos.
CHARLES (Rindo): Se comporta, Calebe.
⎳Calebe ri, e os dois saem. O menino coloca uma música no celular e começa a refletir. Algumas vozes e pensamentos passam pela sua cabeça.
ENRICO (Voz): Eu te pedir perdão, Calebe? Você é quem deveria me pedir perdão de joelhos por ser esse desgosto de filho!
⎳Calebe começa a se sentir ansioso e chora. Ele levanta do sofá angustiado e vai ao quarto. O menino se olha no espelho e retira a camisa, observando seu corpo, rosto e cabelo, passando a mão por eles. Ele tira também o short e fica seminu. Em seguida, abre sua bolsa e veste algumas roupas leves. Ele pega um caderno e se senta na escrivaninha.
BERNARDO (Voz): Você precisa acreditar que isso vai passar, tudo sempre passa. Eu passei pelo que você passou e estou aqui.
⎳Calebe pega uma caneta e começa a escrever numa folha avulsa, enquanto se recorda de alguns momentos.
PIETRO (Voz): Eu não sei o que aconteceu contigo, mas fica bem, tá?
AÇUCENA (Voz): Você é mais corajoso do que pensa. Você teve coragem de enfrentar seu pai, e no seu lugar muitos não fariam o mesmo.
NATALIE (Voz): Agora eu não posso te levar comigo, mas eu prometo que eu volto. Seu pai pode tirar tudo de mim, mas você ele não vai tirar nunca, entendeu?
⎳Calebe derrama algumas lágrimas enquanto escreve. Alguns minutos depois, ele pega a folha e volta para sala, a colocando dobrada em cima da mesa. Ele olha em volta do local e se lembra da tia.
MAITÊ (Voz): Eu te amo, Calebe! Muito muito muito!
CALEBE (Narrando): Eu nem sei por onde começar escrever essa carta. É estranho pensar no que dizer pela última vez para as pessoas que ama.
JUAN (Voz): Vou sentir muita saudade e ficar esperando que tu volte logo!
⎳Calebe chega na varanda da casa e vê a imensidão das águas do mar a alguns metros de distância.
CALEBE (Narrando): Eu juro que tentei muito, mas não consegui. Eu nunca me senti completo, mas depois da morte da minha mãe, tudo desmoronou. Eu vi o meu próprio pai tirar a vida dela e não fiz nada para ajudar. E isso foi me corroendo por dentro...
Cena 07 (Praia)
⎳Calebe coloca os pés na areia. O sol poente reflete em seus olhos verdes. Ele respira fundo e caminha em direção ao mar.
CALEBE (Narrando): Nada nunca foi suficiente para preencher o vazio que eu sentia dentro de mim. O Juan me ajudou muito e foi a melhor pessoa que eu conheci no momento em que mais precisei e mesmo o amando muito, eu estou abandonando ele. Assim como eu amo a minha tia, os meus irmãos, meu tio Charles, a Açucena... E o meu pai, apesar de tudo. Eu não consigo sentir ódio de ninguém ao meu redor, só de mim.
⎳Ele enfim chega na água.
CALEBE (Narrando): Eu me odeio por ter sido fraco e me deixar arruinar cada vez mais por essa angústia. Eu queria tanto sentir o amor que eu vejo os outros sentirem pela vida, mas não consigo. Não queria que tudo terminasse assim... Mas essa dor já é insuportável até mesmo para mim. Eu não estou colocando um fim na minha vida, porque eu já não me sinto vivo há muito tempo...
⎳Calebe afunda gradativamente no mar e desaparece nas águas. Somente o som das ondas é ouvido no lugar.
(FIM DO CAPÍTULO)
Créditos ao som de (I Hurt Too - Katie Herzig):
14/11/2022
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