Três Vidas - Capítulo 33
Abertura:
Cena 01 (Mansão Paranhos/Escritório/Interior/Manhã)
ALLANA (Nervosa): Então foi ela a responsável por matar a ex-mulher do Enrico... Essa Açucena só pode estar me usando para se reaproximar dele!
⎳Ela fecha o laptop com raiva.
ALLANA (Furiosa): Mas se essa mulherzinha pensa que vai me enganar, ela não vai! Eu vou tirar essa história a limpo e vai ser hoje!
⎳Ela se retira do escritório com raiva.
Cena 02 (Floricultura/Interior)
⎳Dália e Bernardo afastam os rostos, ofegantes.
BERNARDO: Você é tão maravilhosa que eu fico sem palavras quando isso acontece.
DÁLIA (Sorrindo): É só um beijo, doutor.
BERNARDO (Rindo): Doutor? Eu já disse que prefiro só "Bernardo".
DÁLIA (Sorrindo): É que às vezes eu gosto de te provocar.
⎳Eles se beijam mais uma vez.
BERNARDO: Eu não queria, mas acho melhor eu ir... Já estou atrasado pro consultório.
DÁLIA: E as suas orquídeas, não vai levar?
BERNARDO (Sorrindo): Ah, claro! Eu tinha até esquecido que vim aqui para isso. É que geralmente eu só uso as flores como desculpa para te ver.
DÁLIA (Sorrindo): E você ainda confessa? Safado!
⎳Os dois riem. As horas se passam.
Cena 03 (Casa de Valentim/Cozinha/Anoitecer)
⎳Ansiosa, Açucena come um sanduíche.
AÇUCENA (Pensamento): A Allana não falou mais nada. Por que ela agiu daquele jeito hoje?!
⎳Ela vê uma notificação de mensagem em seu celular e o pega depressa.
ALLANA (Mensagem): Oi, Sarah! Desculpa por ter ido embora sem falar com você, acabei passando mal no vestiário. Podemos nos encontrar daqui a pouco para conversar?
⎳Açucena suspira aliviada.
AÇUCENA (Mensagem): Com certeza! É só me dizer onde e que horas.
⎳Ela envia a mensagem e sorri.
Cena 04 (NextDay/Entrada/Interior/Noite)
⎳Calebe respira fundo e entra na revista. Ele começa a se sentir nervoso e suas mãos ficam trêmulas. O menino vai até a secretária e para em frente à sua mesa.
SECRETÁRIA: Calebe! Que surpresa o senhor aqui!
CALEBE (Nervoso): Eu gostaria de falar com meu pai, ele está?
Cena 05 (Escritório/Interior)
⎳A secretária bate na porta e entra em seguida.
SECRETÁRIA: Senhor Enrico, um dos seus filhos está aí querendo falar com o senhor.
ENRICO: Qual dos meus filhos?
⎳Calebe surge na sala.
CALEBE (Apreensivo): Sou eu, pai!
ENRICO (Surpreso): Calebe... Pode ir, Marta.
⎳A secretária sai fechando a porta e os deixa a sós.
ENRICO (Sério): O que você está fazendo aqui?
CALEBE: Nós precisamos conversar, pai!
⎳Enrico encara o próprio filho com indiferença.
Cena 06 (Padaria/Interior)
⎳A padaria está vazia. Ronny conta o dinheiro do caixa e se lembra de Wagner.
— FLASHBACK (CAPÍTULO 30) —
WAGNER: Eu acho bom "cê" me arrumar dinheiro, Ronny. Nem precisa ser muito, é só para começar. Senão tu já sabe o que vai acontecer.
⎳Ele sai da casa e bate a porta com força. Ronny se senta no sofá e coloca as mãos sobre a cabeça.
RONNY (Desesperado): Onde eu vou arrumar dinheiro, meu Deus?!
— FIM DO FLASHBACK —
RONNY (Pensamento/Tenso): Eu não queria fazer isso, Deus. Mas eu não tenho outra escolha!
⎳Ronny pega parte da grana do caixa e coloca no bolso da calça. Margaret assiste à cena escondida e se espanta.
MARGARET (Pensamento): Meu Deus, como esse menino teve coragem de fazer isso com a gente?!
⎳Ronny tira seu avental e coloca sobre o balcão, indo embora da padaria. Indira surge atrás de Margaret.
INDIRA (Desconfiada): Tá fazendo o que aí, Margaret?
⎳Margaret se assusta e tenta disfarçar.
MARGARET (Nervosa): Ai que susto, assombração! Tô fazendo nada! Vamos fechar logo essa padaria que eu tô doidinha para ir para casa.
⎳Margaret sai, e Indira continua desconfiada.
Cena 07 (NextDay/Escritório/Interior)
ENRICO: Começa a falar, Calebe, porque eu não tenho a noite toda.
CALEBE: Eu só queria dizer que não é por vontade própria que eu estou aqui. Foi o meu namorado, que você tanto odeia, que me aconselhou vir aqui falar com você.
ENRICO: Já vai começar com esse assunto?
CALEBE: Não. Que você não me apoia com o Juan eu já estou cansado de saber. O que eu vim falar é sobre como você teve coragem de se afastar de mim mesmo depois de tudo. Como você conseguiu ser tão mau pai e não me dar assistência no momento mais difícil da minha vida? Como você conseguiu ser tão cruel a ponto de nunca demonstrar nenhum afeto por mim?!
ENRICO: Eu também perdi a minha mãe quando era jovem, Calebe, e nem por isso eu fiquei choramingando por tanto tempo como você. O Benjamin também me deu uma criação muito rígida, e só por isso eu sou o homem que sou hoje.
CALEBE: E você se orgulha por ser assim?! Incapaz de demonstrar amor pelos seus filhos... Incapaz de dar amor para as suas mulheres...
ENRICO: E como você pode dizer que eu nunca senti amor?! Como você pode dizer que nunca fui bom pai?!
CALEBE (Revoltado): E você foi?! Poucas vezes na vida você me deu um abraço, nunca você me disse um "eu te amo", e quando a minha mãe morreu, você era a única pessoa capaz de me consolar, mas ao invés disso preferiu fingir que eu era invisível. Bastou eu me assumir gay para você arranjar uma desculpa para nunca mais olhar na minha cara e não falar mais comigo!
ENRICO: Então é tudo por isso? Carência? Você só está aqui por carência?!
CALEBE (Exaltado): É carência sim, pai! Por causa dessa carência eu carrego todos os traumas que eu tenho hoje. Por causa disso que você chama de carência, eu passei meus últimos anos sem querer viver, só pensando em como eu poderia morrer para ficar longe de tudo! É por causa disso que eu tenho esses cortes!
⎳Calebe mostra seus pulsos para Enrico, e ele fica surpreso ao ver as marcas de corte.
ENRICO: Então agora você tá entrando nessa moda de ficar se cortando?
CALEBE (Cansado): Você não entende a minha dor, não é? Muito mais que carência, muito mais que esses cortes... Tudo que eu queria era que você reconhecesse que errou e dissesse que me ama por ser seu filho... Tudo que eu queria, pai, era que você me pedisse perdão!
ENRICO (Sério): Eu te pedir perdão, Calebe? Você é quem deveria me pedir perdão de joelhos por ser esse desgosto de filho!
CALEBE (Abismado): Então é isso que você pensa de mim?! Que eu sou um desgosto?! Por isso você é tão diferente da minha mãe. Ela sim sentia orgulho de ser minha mãe, ela sim me defendia e reconhecia minhas qualidades. A minha mãe podia ter todos os defeitos do mundo, mas ela sentia amor por mim!
ENRICO (Sério): A SUA MÃE ESTÁ MORTA!
CALEBE (Fora de Si): Se ela está morta é porque você matou! Você puxou o gatilho e tirou a vida dela na frente da Açucena! Eu vi tudo, e você sabe disso, não é? Você sabia que eu estava lá naquela hora. Assim que você assassinou a minha mãe, você veio até mim e tentou me consolar se fazendo de bom pai. Na única vez na vida que você agiu como pai, não passou de falsidade! Você fez uma verdadeira lavagem cerebral e queria que eu acreditasse que você era inocente, mas eu sempre soube. Você, Enrico Paranhos, matou a minha mãe!
ENRICO (Furioso): CHEGA! Eu não vou deixar você abrir essa boca para falar mais nenhuma merda sobre mim! A Açucena já pagou pelo crime que cometeu, e eu sou inocente, Calebe. Eu sempre vou ser inocente! Você ficou calado quando viu a sua mamãezinha morrer e vai continuar assim. Você foi meu cúmplice, filhinho. (Irônico): Na verdade, eu só tenho a te agradecer. Se não fosse por você, eu jamais teria conseguido sair de inocente depois de matar sua mãe. Muito obrigado pelo seu silêncio!
⎳Um mix de emoções se passa dentro da mente de Calebe, e a única reação que ele tem é chorar descontroladamente e sair da sala. Num ato de raiva, Enrico derruba todas as coisas da sua mesa no chão.
ENRICO (Descontrolado): Merda de vida!
Cena 08 (Corredor/Interior)
⎳Calebe corre pelos corredores da revista, quando esbarra em Pietro.
PIETRO (Irritado): O que "cê" tá fazendo aqui, Calebe?
⎳Com lágrimas nos olhos, Calebe encara o irmão e lhe surpreende com um abraço.
PIETRO (Surpreso): Que isso?!
⎳Calebe não dá ouvidos e continua abraçando o irmão. Pietro se sensibiliza e corresponde ao abraço, passando a mão nas costas de Calebe.
Cena 09 (Shopping/Interior)
⎳Açucena espera por Allana, quando a mulher se aproxima. Açucena vai até ela e sorri.
AÇUCENA (Sorrindo): Amiga, que bom que você chegou! Eu fiquei preocupada...
⎳Allana não se controla e interrompe Açucena lhe dando um forte tapa na cara. Açucena coloca a mão no rosto, em choque.
AÇUCENA (Chocada): O que é isso, Allana?!
ALLANA (Exaltada): Deixa de ser falsa, Sarah! Ou será que eu devo te chamar de Açucena?!
⎳Açucena esbugalha os olhos, sem acreditar no nome que Allana pronunciou.
AÇUCENA (Fingindo): Quem é Açucena?
ALLANA (Séria): Para de fingir! Eu vi a Maitê na academia te chamando pelo seu verdadeiro nome. Eu descobri tudo! Você é a assassina da Natalie!
AÇUCENA (Nervosa): Não é essa a verdadeira história, Allana!
ALLANA: Eu não quero saber! Eu vou contar tudo para o Enrico! Ele vai saber que você está se aproximando de mim por interesse!
AÇUCENA (Séria): E você não tem medo do que uma "assassina" como eu possa fazer?
ALLANA (Nervosa): Do que você tá falando?
AÇUCENA (Sorrindo): Vai lá, Allana. Conta pro seu maridinho que você caiu como uma idiota no meu papinho de amiga. Bom que eu aproveito e conto para ele que você está transando com seu próprio enteado. E aí, quem você acha que vai se ferrar mais, hein?
ALLANA (Tensa): O Enrico não acreditaria em você!
AÇUCENA (Séria): Você quer pagar para ver, amiga?
⎳Açucena debocha, e Allana se mantém amedrontada com a fala dela.
ALLANA (Narrando): Eu estava nas mãos daquela mulher, e ela podia destruir a minha vida na hora que quisesse!
(FIM DO CAPÍTULO)
Créditos ao som de (Lana Del Rey - Doin Time):
09/11/2022
© GS Literatura.