Três Vidas - Capítulo 27
Abertura:
Cena 01 (Bar/Interior/Tarde)
MAITÊ (Perplexa): Mas não faz sentido... Por que o Calebe esconderia uma coisa dessas?
AÇUCENA: Isso é o que eu também queria saber. Talvez por medo, não sei...
MAITÊ: E como você tem tanta certeza disso que tá falando?
AÇUCENA: Porque eu vi ele... No alto da escada...
— FLASHBACK (CAPÍTULO 20) —
⎳Com um semblante inexpressivo, Enrico segura firmemente o revólver, usando um lenço. Natalie lança um olhar quase que sem vida para o ex-marido e cai no chão sem forças. Açucena grita em desespero, e vai até a mulher.
AÇUCENA (Atordoada): Natalie! Ai, meu Deus!
⎳Com um semblante inexpressivo, Enrico segura firmemente o revólver, usando um lenço. Natalie lança um olhar quase que sem vida para o ex-marido e cai no chão sem forças. Açucena grita em desespero, e vai até a mulher.
AÇUCENA (Atordoada): NATALIE! AI, MEU DEUS!
⎳Ela coloca a cabeça de Natalie sobre seu colo e vê o sangue se espalhar pelo tórax dela, manchando suas roupas. No alto da escada, Calebe se senta num degrau e não obtém outra reação a não ser chorar, não conseguindo ver o que se passa por conta da escuridão. Açucena também chora incessantemente.
AÇUCENA (Chorando/Desesperada): O que você fez, Enrico?! Ela não tá respondendo, ela não tá respirando!
⎳Calmamente, Enrico caminha e se agacha até Açucena, colocando a arma no chão.
ENRICO (Nervoso): Ela tá morta, Açucena! Entendeu? Não tem mais nada que eu ou você possamos fazer!
⎳O homem se afasta e deixa ambas sozinhas. Ele nota o choro de Calebe e sobe as escadas, abraçando cinicamente o filho.
— FIM DO FLASHBACK —
MAITÊ (Pensativa): Isso explica tanta coisa... Eu pensava que o Calebe nunca tinha conseguido superar a morte da mãe, mas agora eu vejo que a questão é bem mais profunda. Ele vem guardando esse segredo há tanto tempo que destruiu o psicológico dele...
AÇUCENA: Eu sei que ele deve ter traumas daquela noite, mas não é por isso que ele tem que esconder o que sabe, Maitê. Ele precisa contar o que viu!
MAITÊ: Nós precisamos ter paciência, Açucena, ir com calma. Eu vou conversar com meu sobrinho, mas ele vai precisar de tempo para se abrir.
AÇUCENA: Eu entendo... Só de você estar do meu lado, já é uma ajuda enorme.
MAITÊ: Pode contar comigo, Açucena. Eu vou te ajudar no que for preciso!
Cena 02 (Praia)
⎳Giovanna e Capitu caminham pela areia úmida e molhada da praia. A água do mar vem e vai, molhando suavemente seus pés.
GIOVANNA: O Pietro só ficou em Paris nos primeiros dias, mas depois ele logo voltou pro Brasil.
CAPITU: Então você ficou quase cinco anos sozinha lá na França?
GIOVANNA: Sozinha mais ou menos. Eu fiz muitos amigos, colegas de trabalho... Acho que a única intenção do Pietro era garantir que eu não ficasse com ninguém além dele.
CAPITU: E até hoje ele não desiludiu de você?
GIOVANNA: Eu não sei dizer, é difícil decifrar o Pietro. Acho que na verdade não passa de orgulho ferido. Ele quer voltar para mim, mas só para dizer que me tem de volta.
CAPITU: E nunca te passou pela cabeça voltar com ele?
GIOVANNA: Nunca, Capitu. Porque só tem uma pessoa que eu amo e nunca consegui esquecer, e é você.
⎳Giovanna para de andar e olha para Capitu, que fica tímida. Elas se olham profundamente. Algumas crianças passam jogando bola, o que atrapalha o momento e faz as mulheres acordarem para a realidade.
GIOVANNA: Há quanto tempo nós estamos aqui?
CAPITU (Rindo): É melhor nós voltarmos, né?
GIOVANNA: É...
CAPITU: Eu também nunca consegui te esquecer, porque eu também te amo, Lara.
⎳Dito isso, Giovanna abre um sorriso no rosto, e ambas caminham em silêncio pela praia.
Cena 03 (Quiosque/Exterior)
⎳Dália e Bernardo estão sentadas à beira de um balcão tomando água de coco enquanto conversam.
BERNARDO: Engraçado que é raro nós dois ficarmos sozinhos. Geralmente nossos encontros são sempre por conta da Melissa.
DÁLIA (Rindo): É, verdade. Eu olho tanto para você como médico ou padrinho da Mel, que esqueço de te olhar como Bernardo.
BERNARDO (Rindo): Ai que alívio então, porque essas duas outras versões são muito mais interessantes que o Bernardo comum.
DÁLIA: Ah, eu duvido muito. Você deve ter uma vida muito interessante sim.
BERNARDO: Não, não. Eu sou muito sozinho, Dália. Na minha família a única pessoa que eu tenho uma boa relação é o meu irmão mais novo, fora isso... Não é nada comparado à união que você tem com sua família.
DÁLIA: Mas volta e meia acontece da gente brigar também.
BERNARDO: Uma briguinha ou outra é normal em uma família. No meu caso o buraco é mais embaixo. Eu e meu pai já estamos em um nível tão grande de desunião, que a nossa relação é irreparável.
DÁLIA: Eu sinto muito por você então. Eu cheguei a conhecer seu irmão mais novo, ele parece ser um bom menino.
BERNARDO: Ele é sim, mas infelizmente também foi muito afetado pelo meu pai.
DÁLIA: Ai... família, né.
BERNARDO: Família...
⎳Eles fazem um gesto simbólico de brindar os cocos, e tomam em seus respectivos canudinhos.
Cena 04 (Restaurante/Interior/Noite)
⎳Açucena está numa mesa à espera de Allana, que chega ao local e se junta à amiga.
ALLANA: Desculpa o atraso, Sarah. Você sabe como o trânsito nessa cidade é infernal.
AÇUCENA: Imagina, amiga. Eu estou aqui há pouco tempo. Você parecia nervosa no celular, tem alguma coisa que queira me contar?
ALLANA: Eu sei que nos conhecemos há pouco tempo, mas eu já confio tanto em você, Sarah. Você me entende como ninguém.
AÇUCENA (Sorrindo): Que bom que você pensa assim, porque você tem uma amiga aqui com você. O que te aflige, Allana?
ALLANA: Eu não tenho muitas amigas para falar sobre isso, mas eu sinto que eu posso desabafar contigo. É sobre o meu marido, o Enrico. Ultimamente ele tem sido tão frio comigo, Sarah. Eu não sei se você entende, porque nunca foi casada.
AÇUCENA: Nunca fui casada, mas pode ter certeza que eu entendo muito.
ALLANA: Então, ele já não é mais o mesmo de quando a gente se casou. Eu não acredito que ele tenha outra mulher, mas nada que eu faça o agrada. Ele não consegue reparar na minha roupa, no meu corpo, no meu cabelo, em nada mais...
⎳À medida que ela fala, Açucena se mostra mais interessada no assunto.
Cena 05 (Mansão Paranhos/Escritório/Interior)
⎳Enrico mexe em seu computador, quando olha para a data do dia e se lembra de Açucena.
ENRICO: Então foi ontem... Essa mulher já saiu da cadeia e só agora eu fui me dar conta disso, meu Deus!
⎳Ele se levanta da cadeira e deixa o local rapidamente.
Cena 06 (Restaurante/Interior)
⎳Açucena pega na mão de Allana para consolá-la.
AÇUCENA (Comovida/Fingindo): Eu nunca imaginei que você se sentisse assim nesse casamento. Esse homem parece ser tão frio pelo que você conta.
ALLANA: Infelizmente ele é, Sarah. Nós nos casamos principalmente por conta dos nossos pais e agora eu vejo que tudo não passou de um negócio...
AÇUCENA: Deve ser muito difícil passar por isso, mas é como eu te disse, eu estou aqui para o que você precisar. Tu pode confiar em mim.
ALLANA (Sorrindo): Depois de hoje, eu sei que eu posso mesmo. Você já me deu uma prova de sua amizade, Sarah. Isso era tudo que eu precisava.
⎳Açucena sorri.
Cena 07 (Apartamento de Maitê/Cozinha/Interior)
⎳Calebe chega na cozinha para pegar um copo d'água, quando é abordado pela sua tia.
MAITÊ: Calebe, eu queria ter uma conversa com você.
CALEBE: Sobre o quê?
MAITÊ: Eu sei que é um assunto delicado para você, mas eu quero falar sobre a noite... Em que tudo aconteceu.
CALEBE (Nervoso): De novo esse assunto? Eu te disse que eu não quero remexer nada em relação a isso!
MAITÊ: Calebe, eu quero te ajudar! Eu sei que naquela noite aconteceu mais alguma coisa que você não quer me contar, mas você precisa se abrir comigo. Essa distância entre você e seu pai, esse modo isolado que você tá vivendo. Me conta, o que mais aconteceu naquela noite para te deixar assim?
⎳Maitê se mostra compreensível, mas Calebe fica cada vez mais apreensivo.
Cena 08 (Mansão Paranhos/Interior)
⎳Allana chega em casa e chama por Enrico, mas só Pietro aparece.
PIETRO: Meu pai não está.
ALLANA: E por acaso você sabe onde ele foi?
PIETRO: Não faço ideia, saiu apressado por aí… ao que parece nós estamos sozinhos aqui, Allana...
⎳Ele diz isso se aproximando da mulher.
ALLANA (Tensa): O que você quer dizer com isso?
⎳Como resposta, Pietro apenas ri maliciosamente.
Cena 09 (Rua)
⎳Açucena desce de um táxi e caminha pelo lugar. Ao virar a esquina, ela vê um carro estranho estacionado em frente à sua casa, do outro lado da rua.
AÇUCENA (Estranhando): Aquele não é o Bernardo, é?
⎳Ela olha atentamente e vê um homem dentro do carro acendendo um cigarro e o levando até a boca. Açucena fica pasma ao perceber de quem se trata. Ela rapidamente volta por onde veio, se escondendo.
AÇUCENA (Desesperada): O Enrico! O que esse homem tá fazendo aqui?!
⎳Ela olha para os lados, sem saber o que fazer.
AÇUCENA (Narrando): Eu não podia me encontrar com o Enrico… ainda não era a hora!
(FIM DO CAPÍTULO)
Créditos:
02/11/2022
© GS Literatura.