Três Vidas - Capítulo 23
Abertura:
⎳O sol quase poente ilumina o lado externo da penitenciária. Algumas mulheres desembarcam de um veículo, entre elas Açucena. Algemadas e enfileiradas, elas seguem em direção ao interior do local.
Cena 01 (Presídio/Interior/Fim de Tarde)
⎳Açucena é colocada nua em uma sala, onde uma carcereira a banha com uma mangueira de alta pressão. A água escorre pelo corpo da mulher, que expressa seu desespero através do olhar. Em seguida, já uniformizada, ela recebe um saco com alguns pertences e é conduzida por uma mulher. Ao passar pelo pavilhão, as detentas batem freneticamente nas grades, até que Açucena é colocada dentro de sua cela. Ela se senta num canto do lugar e não profere uma única palavra às outras mulheres.
AÇUCENA (Assustada): Como eu vim parar aqui, meu Deus?!
⎳Ela se encolhe e apoia a cabeça em suas pernas, chorando silenciosamente.
Cena 02 (Casa de Valentim/Sala/Interior/Noite)
⎳Dália e Capitu estão sentadas no sofá. O silêncio constrói um clima de perda de algum ente querido. Margaret aparece.
MARGARET: A Indira finalmente se acalmou e conseguiu dormir. O calmante fez efeito.
DÁLIA: Pelo menos isso, porque ela voltou completamente transtornada do julgamento.
CAPITU: Não é para menos. Se nós já estamos assim, imagina o que se passa com ela que é mãe.
MARGARET: E não tem mesmo nada que possamos fazer sobre a Açucena?
DÁLIA: Eu falei com o advogado, e ele disse que ela ter pegado pena mínima já foi um milagre. Ele pode tentar recorrer, mas é em vão.
MARGARET: Ai, meu Deus! Passar cinco anos atrás das grades por uma coisa que você não fez, é desumano!
DÁLIA: Eu sonhei tanto em ter a Açu aqui para acompanhar o crescimento da Melissa, ela estar perto nesses momentos especiais...
CAPITU: É como se fosse um luto. Por mais que a gente saiba que ela vai sair de lá daqui uns anos, nada nunca vai ser como antes.
⎳Inconsoláveis, elas se entreolham.
Cena 03 (Apartamento de Maitê/Quarto/Interior)
⎳Calebe está deitado na cama, e Maitê faz cafuné nele.
MAITÊ: Dorme bem, meu amor. Qualquer coisa que você precisar eu estou lá na sala.
CALEBE: Eu sei… boa noite, tia!
⎳Ela se retira e deixa o jovem descansar.
Cena 04 (Sala/Interior)
CHARLES: Como ele tá?
MAITÊ: Mal, Charles. O que já era de se esperar. O Enrico não vai saber lidar com o Calebe nesse momento, é melhor mesmo que ele esteja aqui comigo.
CHARLES: E você não acha estranho essa frieza do Enrico com o garoto? Ele perdeu a mãe há pouco tempo, o mínimo que o pai deveria fazer era se agarrar a ele.
MAITÊ: Eu também acho estranho. Esse receio que o Calebe sente pelo pai e vice-versa, só me leva a crer que o Enrico não é inocente nessa história. Eu espero estar enganada, mas diante de tudo que eu vi naquele julgamento, eu não acredito na culpa da Açucena!
⎳Ela fala com firmeza, o que deixa Charles convencido do mesmo.
Cena 05 (Mansão Paranhos/Escritório/Interior)
⎳Enrico está mexendo no notebook quando é interrompido por uma batida na porta, seguida pela entrada de Pietro.
ENRICO: O que você quer aqui, Pietro?
PIETRO: Bom, agora que esse inferno de julgamento finalmente passou, eu tenho um assunto para discutir com o senhor...
ENRICO: Se for sobre a revista, não pode esperar para discutirmos amanhã?
PIETRO: Não, eu prefiro falar aqui mesmo. É sobre a Giovanna.
ENRICO: Ah, e eu pensando que você já tinha esquecido essa menina. O que foi dessa vez?
PIETRO: Você se lembra daquela vez que surgiu uma oportunidade de um curso de um ano para Giovanna em Paris, e eu pedi ao senhor para ocultar isso dela pois poderia prejudicar meu noivado?
ENRICO: Como esquecer… mais e aí, o que tem isso agora?
PIETRO: Daí que eu quero que o senhor ofereça esse curso para ela. Eu quero a Giovanna longe daqui!
ENRICO: Realmente não dá para te entender. Você acha que é fácil assim? Já faz não sei quanto tempo que isso ocorreu e você quer que eu volte atrás nessa decisão assim do nada?
PIETRO: Para você eu tenho certeza que é fácil. A Giovanna viaja, fica um ano em Paris e depois volta para revista mais experiente do que antes. É um bom negócio, não é?
ENRICO: Eu espero que você esteja certo dessa sua decisão. Se você acha que é melhor ter essa mulher longe de você tudo bem, não vai me prejudicar em nada mesmo.
PIETRO: Perfeito então! Oferece a ela o mais rápido possível. Conhecendo o espírito empresarial da Giovanna, eu tenho certeza de que ela vai aceitar!
⎳Ele sorri maliciosamente, já com uma ideia em mente. Amanhece no Rio de Janeiro.
Cena 06 (NextDay/Escritório/Interior/Manhã)
⎳Giovanna está na sala com Enrico e se espanta com a proposta feita por ele.
GIOVANNA (Surpresa): Um estágio em Paris?! Enrico, mas isso é perfeito!
ENRICO: De fato, é uma oportunidade única para você. Além do mais, um ano passa rápido, não é?
GIOVANNA (Pensativa): É… só um ano...
ENRICO: Eu preciso saber de você: aceita ou não?
GIOVANNA (Tensa): Essa é uma decisão difícil para ser tomada assim sem pensar em todos os detalhes. Eu tenho tempo para pensar, pelo menos?
ENRICO: Claro, só não muito.
GIOVANNA: Tudo bem...
⎳Ela sai da sala e pega seu celular ao chegar no corredor, ligando para Capitu.
GIOVANNA: Ei, como você tá?
CAPITU (Voz): O clima aqui está péssimo, Lara. Tanto que nem fui para a revista hoje, mas isso nem me preocupa já que em breve eu vou pedir demissão.
GIOVANNA: Olha, eu sei o que você tá passando, mas o que você acha da gente sair hoje à noite? Vai ser bom para a gente conversar, eu te garanto.
CAPITU (Voz): Pode ser, Lara. A gente se fala melhor por mensagem.
GIOVANNA: Ok, eu te chamo.
⎳Ela desliga e aparenta preocupação no rosto.
Cena 07 (Presídio/Pátio/Interior)
⎳Açucena caminha pelo pátio lentamente, analisando o local. Algumas detentas a olham com indiferença, enquanto outras apresentam desconfiança. Ela se senta em um banco para aproveitar o banho de sol e fecha os olhos, até que sente uma sombra tampando sua visão. Ela volta a abrir os olhos e vê uma companheira de cela.
DETENTA: Tu não deu um piu essa noite hein, novata. Diz aí, qual seu nome?
AÇUCENA (Nervosa): É… Açucena, e o seu?
ZENDIRA: Zendira. Mas e aí, o que te fez cair nesse buraco?
⎳Açucena pensa em uma resposta.
— FLASHBACK (CAPÍTULO 2) —
⎳Açucena se aproxima de Enrico, em seu olhar o interesse no homem era nítido.
AÇUCENA (Sorrindo): Olá… Você tá sozinho?
ENRICO (Sorrindo): Gostaria de me fazer companhia moça?
AÇUCENA: Eu adoraria! Se não for incomodá-lo.
ENRICO: Em hipótese alguma… Prazer, Enrico!
AÇUCENA (Sorrindo): Açucena!
⎳A moça se senta ao lado do empresário, e os dois passam a conversar…
— FIM DO FLASHBACK —
AÇUCENA (Sério): Se eu estou onde eu estou, é por conta de um único culpado: Enrico Paranhos!
⎳Zendira olha curiosa, interessada em saber quem é o homem.
Cena 08 (Casa de Valentim/Exterior/Noite)
⎳Giovanna para com o carro em frente a casa, onde Capitu a espera. Ela desce do veículo para cumprimentá-la.
GIOVANNA (Sorrindo): Você está linda, Capitu!
CAPITU: Olha só quem fala...
GIOVANNA: Não, eu nem chego aos seus pés. (Sorri) Vem, vamos.
⎳Elas entram no carro e partem. Algumas horas se passam.
Cena 09 (Apartamento de Giovanna/Interior)
⎳As duas entram rindo no lugar. Capitu admira o apartamento.
CAPITU: Então é aqui que você mora?
GIOVANNA: Gostou?
CAPITU: É muito lindo, Lara! Mas eu não entendi por que você me trouxe para cá...
GIOVANNA: Eu achei que nós merecíamos um momento só nosso, Capitu. Sem ninguém para nos interromper ou atrapalhar. O que você me diz?
CAPITU (Sorrindo): Eu acho que a gente realmente merece mesmo.
⎳Giovanna sorri, e a duas se beijam. Ela coloca a mão sobre a nuca de Capitu, e esta entrelaça os braços na cintura de Giovanna. As duas se separam rapidamente, e no calor do momento Giovanna retira seu próprio vestido e ajuda Capitu a fazer o mesmo. Ambas voltam ao beijo e, sem se desgrudarem, chegam ao quarto. Nervosa, Capitu se senta na cama. De pé, Giovanna vira de costas para a mulher.
GIOVANNA (Sorrindo): Me ajuda?
⎳Capitu entende o sinal e retira o sutiã dela. Giovanna se vira novamente e deixa a outra sem palavras. Elas se beijam novamente e deitam na cama, onde passam a noite juntas. Um novo dia chega.
Cena 10 (Cozinha/Interior/Manhã)
⎳Giovanna põe a mesa pro café da manhã, e Capitu surge na cozinha, com um semblante de sono.
GIOVANNA (Sorrindo): Acordou?
CAPITU: Eu dormi muito? Ai meu Deus, eu nunca passei a noite fora de casa antes. Minha família deve tá preocupada.
GIOVANNA: Relaxa, boba. Eu acordei há pouco também, mas deu tempo de eu preparar para a gente tomar um café juntas.
⎳Elas se sentam à mesa e se servem.
GIOVANNA: Escuta, Capitu, eu amei demais passar essa noite contigo.
CAPITU: Eu também amei, Lara. Eu nunca me senti tão bem com alguém assim antes.
GIOVANNA: E eu também não, Capitu. Por isso eu quero te falar sobre algo que aconteceu ontem.
CAPITU: O quê?
GIOVANNA: O Enrico me fez uma proposta de passar um ano em Paris, é uma espécie de curso. Seria uma chance extremamente realizadora e única para mim, entende?
CAPITU (Triste): Então foi para isso que me trouxe aqui? Para se despedir de mim?
GIOVANNA: Não, não pensa assim. Muito pelo contrário. Eu não quero perder você, Capitu! Por isso eu quero te pedir para ir comigo à Paris, para nós passarmos um ano juntas!
CAPITU (Gaguejando): Ir-com-você?
GIOVANNA (Sorrindo): É! O que você me diz?
⎳Capitu fica receosa.
CAPITU (Narrando): Eu só tinha duas opções: seguir com a mulher que eu amo ou ficar e apoiar minha família nesse momento que eles tanto precisam de mim.
(FIM DO CAPÍTULO)
Créditos:
26/10/2022
© GS Literatura.