Três Vidas - Capítulo 22
Abertura:
Cena 01 (NextDay/Escritório/Fim de Tarde)
⎳Benjamin se senta no sofá.
BENJAMIN (Indignado): Como você pode ter feito uma coisa dessas?! Como você pode ter matado a mãe do seu filho?!
ENRICO (Furioso): Você me colocou nessa situação quando pediu para eu escolher entre a sua herança ou a Açucena! Eu não podia arriscar perder tudo e tive que pensar rápido!
BENJAMIN: Você distorceu o que eu falei! Bastava dar um pé na bunda dessa Açucena e mandar ela para bem longe!
ENRICO: Mas calhou da Natalie invadir a mansão logo naquele dia. Muito conveniente, não é? Agora já tá tudo feito, pai!
BENJAMIN: Meu Deus do céu… eu não tô nem um pouco preocupado com a menina que foi presa no seu lugar, mas sim com o fato da polícia poder chegar em você a qualquer hora, Enrico!
ENRICO: Eles nunca vão chegar em mim, porque eu não sou burro! Ninguém vai acreditar na palavra da Açucena, e eu vou sair como a verdadeira vítima!
BENJAMIN (Angustiado): A mãe do Bernardo e do Pietro foi você também, não foi, Enrico? Foi você o culpado pela morte dela!
ENRICO: Foi tudo um acidente, pai. Você sabe disso tanto quanto eu, não é?
⎳Benjamin tenta se manter firme, mas não consegue esconder o nervosismo.
BENJAMIN: E o que você vai fazer agora?
ENRICO: Nós temos um velório para ir, não temos?
⎳Ele fala num tom de deboche, deixando o pai incrédulo.
Cena 02 (Delegacia/Interior/Noite)
⎳O local está escuro e apenas uma fresta de luz penetra pela janela minúscula. Açucena se encontra sentada no chão, ao lado da grade. Seus olhos e o rosto inchado entregam o cansaço de tanto chorar.
AÇUCENA (Pensando): Minha primeira noite aqui. Até quando eu vou ficar nesse inferno?!
⎳Ela fecha os olhos, tentando descansar.
AÇUCENA (Pensando): Eu preciso sair daqui, meu Deus! Me tira daqui!
⎳Ela consegue adormecer, e lentamente a madrugada passa.
Cena 03 (Cemitério/Interior/Manhã)
⎳Uma multidão de pessoas caminham pelo local, acompanhando o enterro de Natalie. Ao lado do caixão está Enrico e Calebe, que é consolado por Maitê. Charles também acompanha a namorada. Mais atrás, Bernardo e Giovanna conversam.
GIOVANNA (Triste): Eu não sei como isso foi acontecer com ela, Bernardo. Depois que o Enrico se separou da Natalie, ela parecia tão disposta a mudar.
BERNARDO: Eu imagino. Mas a dependência que ela tinha pelo meu pai não era algo tão fácil de desenraizar.
GIOVANNA: Eu sinto tanto por ela. E sinto tanto pela Maitê e o Calebe por estarem passando por isso...
BERNARDO: Eu estou muito preocupado com meu irmão. Superar uma perda dessa não é fácil para ninguém, e eu digo por experiência própria.
GIOVANNA: Eu imagino… mas a Maitê ama demais esse menino, eu sei o quanto ela vai se esforçar para apoiar ele.
BERNARDO: Porque se depender do Enrico...
⎳Eles se olham com conformidade. Pietro observa a mulher conversar com o irmão, com um semblante sério e carregado.
PIETRO (Pensando): Eu ainda não esqueci de você, Giovanna Lara...
⎳Ao passar do tempo, o enterro ocorre. Um padre reza por Natalie, e o caixão é enterrado. As pessoas se aproximam para jogar flores e, aos poucos, a multidão vai se esvaindo. Enrico se aproxima para tentar abraçar Calebe, mas ele recusa e corre para os braços da tia.
MAITÊ (Chorando): Tá tudo bem, meu amor. Eu tô aqui com você...
⎳O menino chora descontroladamente e a tia passa a mão em seus cabelos. Enrico fica insatisfeito com a atitude do filho, mas tenta disfarçar. Um vento forte sopra pelo cemitério, fazendo as árvores balançarem. Dias e semanas vão se passando, até enfim chegar o dia do julgamento de Açucena.
Cena 04 (Delegacia/Sala de Visitas/Interior/Manhã)
⎳Açucena veste uma roupa formal, preparada para audiência. Seu advogado conversa com ela.
AÇUCENA (Nervosa): Eu quero saber se eu tenho chances! Esse tempo todo esperando chegar essa merda de julgamento não pode ter sido em vão!
ADVOGADO: Eu já disse que farei o possível, Açucena! Suas chances são boas, você sabe disso, mas infelizmente não existe nenhuma prova que incrimine o Enrico.
AÇUCENA: Então de qualquer forma eu vou pagar no lugar dele, é isso? Ele vai ficar livre enquanto eu continuo aqui?!
ADVOGADO: Primeiro temos que nos preocupar com a sua defesa. Você já sabe tudo que combinamos. O mais importante é você ficar calma, Açucena!
AÇUCENA: Me pede qualquer coisa, por favor, menos calma!
⎳O advogado olha para ela preocupado.
Cena 05 (Casa de Valentim/Interior)
⎳Todas estão na sala, prontas para sair.
DÁLIA: Você tem certeza que vai ficar bem com a Mel?
RONNY: E por que eu não ficaria, Dália? Eu já disse, pode ir tranquila. Eu sei cuidar da minha filha!
DÁLIA: Tudo bem, Ronny...
⎳Ela vê Indira ir à cozinha e a segue.
Cena 06 (Cozinha/Interior)
⎳Apreensiva, a mulher segura com firmeza um terço em mãos, enquanto faz uma reza num tom de voz quase inaudível.
DÁLIA: Indira… eu não quero atrapalhar seu momento, mas temos que ir.
INDIRA: Eu sei, Dália. Eu só queria rezar antes, porque eu… essa situação tá me fazendo tão mal. Eu sinto uma coisa ruim aqui dentro. Eu queria ser otimista, mas não tenho esperança nenhuma...
DÁLIA: É normal ficar assim, Indira. Mas você é uma mulher de fé, e é disso que nós precisamos ter agora: fé! A Açucena está desacreditada, mas nós precisamos ter esperanças de que ela vai sair dessa!
INDIRA (Emocionada): Deus te ouça, Dália!
Cena 07 (Tribunal/Interior/Tarde)
⎳Indira e a família chegam ao local e veem a família de Enrico presente.
INDIRA (Sussurrando/Com Ódio): Esse homem. É por culpa dele que a minha Açucena está passando por tudo isso.
MARGARET: Se eu fosse você...
CAPITU: Mas você não é, mãe.
DÁLIA: Ignora esse homem, Indira. Para ele nós não somos nada, e é isso que ele tem que ser para nós também.
⎳Indira respira fundo. Enrico olha para elas com indiferença, já Calebe fica tenso.
Cena 08 (Casa de Valentim/Quarto/Interior)
⎳Cuidadosamente, Ronny segura a filha nos braços, enquanto dá para ela uma mamadeira.
RONNY: Ô, Mel… é sacanagem isso que tua tia tá passando. Por mais que ela não goste de mim, é injusto ela tá lá naquele tribunal. Ela lá inocente, e eu que fiz o que fiz tô aqui… esse mundo não vale nada mesmo!
⎳A bebê olha para o pai sem compreender nada.
RONNY: Você ainda é inocente, graças a Deus...
Cena 09 (Tribunal/Audiência/Interior)
⎳Todos se organizam no local. O juiz entra na sala e passado algum tempo ele anuncia o julgamento.
JUIZ: Declaro instalada e aberta a Sessão do Tribunal do Júri desta Comarca. Será submetido a julgamento o processo penal que a Justiça Pública move contra Açucena de Oliveira. Sendo vítima Natalie Braga Paranhos.
⎳Em seguida, Açucena chega ao local guiada por policiais e é apresentada ao juiz. Indira enche os olhos de lágrimas ao ver a filha nesta situação. Logo, Enrico é chamado, e Açucena tenta se controlar a cada resposta que o homem dá.
ENRICO: Eu confirmo, meritíssimo. Eu vi a ré atirar contra a minha ex-esposa, que estava fragilizada e bêbada...
AÇUCENA (Exaltada): Seu canalha! Como você pode ser tão cínico?! Você sequer foi me ver na delegacia e aparece aqui desse jeito!
JUIZ: SILÊNCIO! A ré não pode se pronunciar ou a sessão será suspensa!
⎳Enrico se mantém frio, enquanto Açucena é contida pelo advogado. Depois, Calebe também é chamado, mas omite os fatos. Na sequência, Maitê e Indira também são ouvidas. Por último, Açucena é interrogada. E enfim, o Juiz pede a retirada da ré e do público do recinto.
Cena 10 (Corredor/Interior)
⎳Capitu toma um copo d'água e conversa com Giovanna.
GIOVANNA: Eu não consigo nem imaginar pelo que você tá passando.
CAPITU: Nem eu consigo imaginar que tô passando por isso, Lara. A minha irmã sendo acusada de matar a sua amiga...
GIOVANNA: Ei, eu acredito no que você me contou! Eu acredito na inocência da sua irmã, por mais que me espante muito saber que o Enrico provocou isso. É monstruoso demais até mesmo para ele...
CAPITU: Eu sei, e é por isso que eu não posso mais continuar trabalhando na revista.
GIOVANNA: O quê?!
CAPITU: Eu preciso sair da NextDay o quanto antes, Lara. Não dá para ficar convivendo com o mesmo cara que destruiu a vida da minha irmã e da minha família.
GIOVANNA: Eu te compreendo, Capitu. Independente da sua decisão, eu vou te apoiar!
⎳Capitu sorri com os olhos, embora a tristeza do momento a impedisse de ficar feliz.
Cena 11 (Audiência/Interior)
⎳Todos retornam ao lugar, e o Juiz se prepara.
JUIZ: Peço a todos os presentes que fiquem de pé para a leitura da sentença.
⎳Assim, todos os fazem. Apoiada em Margaret e Dália, Indira volta a apertar seu terço, rezando pela filha. Maitê anseia pelo resultado, assim como Enrico, e Calebe se sente culpado. Capitu e Giovanna ficam apreensivas. De pé, Açucena fecha os olhos aterrorizada, já esperando o pior. O silêncio ensurdecedor do local é cortado pela voz do juiz.
JUIZ: A ré Açucena de Oliveira Barbosa, pelo homicídio culposo de Natalie Paranhos Braga, é condenada a cinco anos de prisão, com um sexto da pena reduzida em benefício do réu primário. Que deverão ser cumpridos em regime fechado e solo nacional, no Presídio Nelson Hungria. Está encerrada a sessão.
⎳Açucena sente suas pernas estremecerem. Ela abre os olhos, olha para trás e vê desespero de sua mãe. Dália e Capitu lamentam e choram. Açucena olha para Enrico, que esboça um pequeno sorriso. Ela é algemada pelos policiais.
INDIRA (Chorando): Açucena, não! Minha filha não!
⎳Açucena olha para mãe com um semblante de derrota. Um fio de lágrima escorre dos seus olhos e ela abaixa a cabeça.
AÇUCENA (Narrando): Além da liberdade, me tiraram a vontade de viver...
(FIM DO CAPÍTULO)
Créditos:
25/10/2022
© GS Literatura.