Três Vidas - Capítulo 20
Abertura:
Cena 01 (Mansão Paranhos/Interior/Madrugada)
⎳Com um semblante inexpressivo, Enrico segura firmemente o revólver, usando um lenço. Natalie lança um olhar quase que sem vida para o ex-marido e cai no chão sem forças. Açucena grita em desespero, e vai até a mulher.
AÇUCENA (Atordoada): NATALIE! AI, MEU DEUS!
⎳Ela coloca a cabeça de Natalie sobre seu colo e vê o sangue se espalhar pelo tórax dela, manchando suas roupas. No alto da escada, Calebe se senta num degrau e não obtém outra reação a não ser chorar, não conseguindo ver o que se passa por conta da escuridão. Açucena também chora incessantemente.
AÇUCENA (Chorando/Desesperada): O que você fez, Enrico?! Ela não tá respondendo, ela não tá respirando!
⎳Calmamente, Enrico caminha e se agacha até Açucena, colocando a arma no chão.
ENRICO (Nervoso): Ela tá morta, Açucena! Entendeu? Não tem mais nada que eu ou você possamos fazer!
⎳O homem se afasta e deixa ambas sozinhas. Ele nota o choro de Calebe e sobe as escadas, abraçando cinicamente o filho. Açucena fica por longos minutos debruçada sobre o corpo de Natalie, sem saber qual decisão tomar. Depois de alguns minutos, policiais armados invadem a casa e iluminam o cômodo. Rapidamente eles vão de encontro à Açucena, que a esta altura está marcada pelo sangue de Natalie. Sua face demonstra o instintivo desejo de fugir, mas não o faz. Os policiais dão voz de prisão. Algemas são colocadas nos pulsos de Açucena e ela é levada para fora da casa. Enrico a segue, deixando o filho sozinho e em total estado de desolação.
Cena 02 (Mansão Paranhos/Exterior)
⎳Diversas viaturas e uma ambulância estão paradas no local. Os policiais conduzem Açucena até o carro, quando ela vê Enrico.
AÇUCENA (Gritando/Chorando): NÃO DEIXA ELES ME LEVAREM, ENRICO! Fala para eles, fala que eu sou inocente! DIZ PARA ELES, ENRICO!
⎳Enrico encena não compreender o que Açucena diz, o que a assusta. Ela tenta se soltar, em vão, sendo colocada no camburão. Ela olha pro homem através do vidro, e é então que seu amor cruza a linha tênue do ódio.
Cena 03 (Sala/Interior)
⎳Calebe, trêmulo, desce degrau após degrau com dificuldade. Sem coragem, ele se aproxima do corpo da mãe e olha para o rosto dela: pálido, angustiado e sem brilho no olhar.
CALEBE (Chorando): Mãe...
⎳Ele tenta se aproximar mais, porém é impedido pelas autoridades, sendo retirado do local aos prantos.
Cena 04 (Hospital/Quarto/Interior)
⎳Dália está na cama, dessa vez com a filha no colo, com Ronny.
RONNY (Animado): Eu nunca pensei que eu fosse ser pai por agora. "Cê" tá ligada né, Dália. Mas cara, eu também nunca pensei que fosse ficar tão feliz de ver uma criança!
DÁLIA (Sorrindo): A nossa filha, Ronny… ela vai ter a oportunidade de ser criada por um pai assim… um pouco atrapalhado né, para ser sincera, mas eu tenho certeza que tu vai ser maravilhoso para Melissa.
RONNY: E eu vou mesmo, pô! Eu já tô do seu lado desde que soube que tu tava grávida, agora então vai ser só alegria. Eu tô trabalhando honestamente na padaria do seu pai, e quero seguir assim na minha vida.
DÁLIA: Eu quero acreditar, de verdade, que você esteja sendo sincero e realmente esteja mudado, Ronny.
RONNY: "Cê" sabe que eu tô, Dália. Eu vou te provar!
DÁLIA: Para mim você não precisa provar nada, nossa ligação é unicamente com a Melissa. Eu já fui clara, né?
RONNY (Sorrindo): Eu já saquei...
⎳Uma enfermeira entra no quarto e auxilia Dália.
Cena 05 (Hospital/Exterior)
⎳À luz de um poste, Capitu e Giovanna Lara conversam.
CAPITU: Só você mesmo para se deslocar até um hospital a essas horas...
GIOVANNA: Você tava precisando, eu vim. Fiz mal?
CAPITU (Sorrindo): Não, Lara, fez muito bem! Mas felizmente eu estou aqui por uma coisa boa, né? E não por uma tragédia.
GIOVANNA: Claro, claro… não é todo dia que alguém se torna tia.
CAPITU: Ai, eu quero que você conheça a Melissa logo, é a bebezinha mais linda do mundo!
GIOVANNA: Ela tem sorte de ter você como titia, tenho certeza que vai ser maravilhosa!
⎳Capitu sorri, e nesse mesmo instante Giovanna Lara toma a liberdade de beijá-la. Capitu se assusta no primeiro momento, mas logo retribui. As duas ficam paradas por um longo tempo se beijando. Não muito distante, Pietro sai para fora do hospital e presencia o momento.
PIETRO (Pasmo): Não, não é possível...
⎳Ele fica transtornado, mas antes que pudesse tomar qualquer atitude, seu celular toca. Ele atende e sua expressão se torna ainda mais aflita. O homem corre em direção ao estacionamento, saindo em disparada com seu carro.
Cena 06 (Casa de Valentim/Interior)
⎳Os primeiros raios solares penetram pelas janelas. Ansiosa, Indira está na cozinha.
INDIRA: E essas meninas que não dão notícia, meu Deus! Eu aqui preocupada e não falam nada sobre a Dália...
⎳De repente, o telefone fixo toca na sala e ela vai atender. Ao ouvir o que é dito na ligação, a mulher fica tonta.
INDIRA (Incrédula): A minha filha o quê?!
⎳Ela cai no sofá, passando mal.
Cena 07 (Apartamento de Maitê/Sala/Interior)
⎳Maitê e Charles tomam café da manhã enquanto conversam.
MAITÊ: Eu não sei se fizemos bem em deixar a Natalie sozinha ontem. Ela parecia muito abalada, Charles!
CHARLES: Amor, você não tem que se sentir responsável pela Natalie o tempo todo. Eu já percebi o quanto ela é instável, mas uma hora ela vai ver que essa luta pelo Enrico não vai levar ela a nada.
MAITÊ: Mesmo que tenha razão, eu não consigo não me preocupar. Não enquanto eu não souber que ela está bem.
CHARLES: Ela tá bem, Maitê. Não tem motivo para ficar assim.
⎳Ele se levanta da mesa e, por força do hábito, liga a televisão, na qual um noticiário passa.
REPÓRTER (Voz): O caso ocorreu nessa madrugada, no Leblon. Segundo as autoridades, Natalie Paranhos teria invadido a casa do ex-marido e acabou sendo morta pela atual mulher de Enrico Paranhos, que foi presa em flagrante no local.
⎳Na televisão, são mostradas imagens aéreas da mansão de Enrico. Maitê fica consternada e derruba sua xícara na mesa. Sem acreditar, ela vai até a televisão e a encara com desespero. Charles fica tenso.
CHARLES: Maitê...
⎳Maitê desmaia bruscamente e Charles consegue segurá-la. O homem tenta reanimá-la a qualquer custo.
Cena 08 (Delegacia/Interior)
⎳Açucena é guiada por um policial. O rosto da moça é dominado pelo cansaço, evidentes olheiras e poucas lágrimas que ainda insistem em cair. Ela é colocada dentro de uma sala, onde encontra sua mãe. Indira, por mais que visse a filha na sua frente, não conseguia acreditar naquela realidade. Ela começa a chorar, de maneira que só uma mãe desesperada seria capaz de fazer.
INDIRA (Chorando): Olha onde você veio parar, Açucena!
AÇUCENA (Chorando): Mãe...
⎳As duas se abraçam fortemente. Quando se afastam novamente, Indira passa a mão pelo rosto da filha, e se preocupa com o estado dela.
INDIRA: Me fala o que aconteceu, Açucena!
AÇUCENA (Gaguejando): Foi ele… foi o Enrico, mãe! Ele apertou o gatilho e matou a Natalie na minha frente! Você não tem ideia… eu não sei direito o que o Calebe viu, mas ele assistiu à morte da própria mãe!
INDIRA (Chorando): Ai, meu Deus!
AÇUCENA (Nervosa): A Natalie entrou naquela casa usando uma faca, ela me ameaçou e eu tava desesperada. E se o Enrico não tivesse atirado, talvez eu teria morrido!
INDIRA: O que é pior ainda! Você não tá querendo defender o Enrico, está?!
AÇUCENA: Não… mas você não tem noção do que eu tô sentindo. Esse sentimento de traição, essa angústia por não poder fazer nada… eu não tenho forças para lidar com essa situação...
INDIRA: O tanto que eu te avisei, o tanto que eu te alertei, Açucena! Eu cansei de te dizer para se afastar desse homem, porque ele só te traria problemas. Você quis tanto insistir que pertencia a essa vida de luxo, que nasceu para elite, e o que você conseguiu, minha filha? Tudo isso para parar numa delegacia da zona sul por uma coisa que você não fez!
AÇUCENA: Não me julga, mãe! Eu já tenho consciência dessa merda toda. Eu só não quero ser presa injustamente, era pro Enrico estar no meu lugar! Ao invés disso, ele até agora não veio me ver. Como é possível que eu estava junto de alguém tão monstruoso e não percebi nada?!
INDIRA: Você não percebeu, mas todas as pessoas ao seu redor perceberam e tentaram te avisar. O amor cega as pessoas, Açucena. Você não só ficou cega, como também irracional!
AÇUCENA: Eu me entreguei de corpo e alma pro Enrico… eu mudei por ele, mãe. Eu estava tentando ser uma boa pessoa com o filho dele, uma nova mulher madura e centrada, tentando ser tudo que a Natalie nunca conseguiu ser… porque eu amava ele de verdade!
⎳Indira se aproxima novamente da filha e a abraça mais uma vez, passando a mão por seus cabelos.
INDIRA: E quais são as chances de você ser presa, Açucena?
AÇUCENA (Chorando): Muitas… eu não vou ser condenada por assassinato, e sim por excesso de defesa, o que é um pouco melhor, mas continua injusto para mim que não fiz nada! Eu não aceito!
INDIRA: E o Enrico? Quais as chances dele ser preso?
AÇUCENA: Eu duvido muito que acreditem em mim... mãe, o Enrico usou o revólver do papai para fazer isso...
INDIRA (Incrédula): O revólver do Valentim?!
AÇUCENA (Desolada): A policia chegou e era eu quem estava com a Natalie, com o revólver ao lado… agora você entende, não é? Eu tô ferrada! O Enrico desgraçou a minha vida!
⎳Indira sente seu coração se estilhaçar em mil pedaços, e olha com melancolia para a filha.
INDIRA (Narrando): É a pior sensação para uma mãe ver a filha se afundar, e ficar de mãos atadas. Eu não podia deixar a vida da minha filha ser destruída, não podia!
(FIM DO CAPÍTULO)
Créditos:
21/10/2022
© GS Literatura.