Três Vidas - Capítulo 08
Abertura:
Cena 01 (NextDay/Antessala/Interior/Tarde)
⎳Ao ver que Natalie não retribui o cumprimento, Açucena recolheu sua mão.
CAPITU (Nervosa): Mas você já estava de saída, não é, Açucena?
AÇUCENA (Sorrindo): Infelizmente sim, mas foi um prazer conhecer uma mulher tão influente e linda como você, dona Natalie!
⎳Ela sai, mantendo o mesmo sorriso cínico.
CAPITU (Nervosa): A Giovanna não está aqui agora. Deseja algo enquanto isso?
NATALIE: Não, tudo bem, eu vou esperar na sala dela.
⎳Ela entra na sala e Capitu suspira, aliviando a tensão.
Cena 02 (Barracão de Ronny/Interior)
DÁLIA: É… exatamente isso que você ouviu.
RONNY: Como isso aconteceu?! Não pode ter acontecido assim do nada né? Você tem certeza de que eu sou o pai?
DÁLIA: Não me pergunta como isso aconteceu, Ronny, porque essa parte nós já sabemos. Agora quanto à paternidade, felizmente ou infelizmente, eu tenho 100% de certeza que você é o pai.
RONNY (Apreensivo): Não dá para acreditar nisso… fala sério!
DÁLIA: Não pense que tá sendo fácil para mim, porque não está, Ronny. Eu só estou aqui porque eu quero que tu cumpra com suas responsabilidades de pai, não dá para eu me manter sozinha.
RONNY: Responsabilidade de pai? Porra, como tu quer que eu arque com alguma responsabilidade? Olha a casa e o lugar onde eu moro, nem trabalho fixo eu tenho, eu vivo de bico por aí. Já você eu sempre achei maior burguesinha. Tem uma casa grande, num bairro bom, com a padaria do papai...
DÁLIA: Acontece que meu pai morreu, Ronny!
⎳O rapaz finge espanto, embora tenho sido o causador disso.
DÁLIA: Eu sei que nós estamos em situações diferentes, mas isso não significa que eu tenha condições de criar um filho sozinha. E eu não estou falando só de dinheiro e bens materiais não, tô falando também de tempo, cuidado, responsabilidade afetiva… eu sei que tu é mais novo que eu, sempre foi um moleque, e agora dizendo essas coisas eu não sei onde eu tava com a cabeça quando me envolvi contigo. Mas o fato é que chega um momento que você precisa amadurecer!
RONNY (Tenso): É muita coisa para eu pensar...
⎳Ele tira um maço de cigarros do bolso e pega um. Ele acende o cigarro com um isqueiro e dá um trago, tentando se acalmar.
RONNY: Tu é uma pessoa bacana, Dália. E eu sempre quis ter um filho, mas não nesse momento, sabe?
DÁLIA: Se eu tivesse que escolher eu também não queria que essa gravidez viesse agora, Ronny. Mas o que eu posso fazer?! É difícil que você não tenha nem um emprego, mas quanto a isso eu posso resolver. A gente tá procurando exatamente uma vaga de ajudante lá na padaria do meu pai, tu já teria uma renda fixa.
RONNY: Maneiro isso aí… eu numa padaria, nunca pensei.
DÁLIA: Olha, também quero deixar bem claro que eu não pretendo manter relação contigo, mas quanto ao resto, vamos fazer tudo certo. Pelo bem dessa criança!
⎳Ronny deixa escapar um sorriso tímido.
RONNY: Concordamos nisso então.
⎳A noite cai sobre a cidade.
Cena 03 (Hotel/Quarto/Interior/Noite)
⎳Açucena e Enrico se encontram, trocando um beijo. O homem tira um pequeno envelope do bolso do paletó e entrega para a moça.
AÇUCENA: O que é isso?
ENRICO (Sorrindo): Abre! Da última vez você não disse que queria algo de mais valor? Pois então.
⎳Ela abre e se depara com várias cédulas de dinheiro.
AÇUCENA (Chocada): Enrico, meu Deus, é muito dinheiro! (Fingindo) Não, eu não posso aceitar, o que tu vai pensar de mim?
ENRICO: Imagina, isso é seu. Só uma pequena ajuda. Agora fica aí enquanto eu tomo uma ducha, já já eu volto para a gente se divertir.
⎳Ele sorri maliciosamente. Antes de entrar no banheiro, ele tira seus pertences do bolso e confere algo rapidamente no celular, logo em seguida o deixa sobre a mesinha de centro e segue para o banho. Açucena nota o aparelho desbloqueado.
AÇUCENA (Pensamento): Hoje só pode ser meu dia de sorte!
⎳Ela pega o celular e começa a navegar por alguns aplicativos. Quando encontra o que queria, um sorriso surge espontaneamente no seu rosto.
POUCOS DIAS DEPOIS...
Cena 04 (Consultório/Interior/Manhã)
⎳Dália está sentada numa cadeira de frente a Bernardo.
BERNARDO (Sorrindo): Que bom que veio, Dália! Da última vez saiu daqui muito abalada, fiquei preocupado. Está tudo bem?
DÁLIA: Felizmente, agora está tudo bem. Só quero começar logo esses exames porque estou morta de ansiedade!
BERNARDO: E a dor que teve no braço?
DÁLIA: Aquilo foi coisa de momento mesmo, doutor. Agora já estou bem.
BERNARDO: Bom, então já podemos começar os exames. Pode deixar seus objetos aqui, depois pode trocar de roupa ali e deitar na maca.
⎳Ela coloca sua bolsa sobre a mesa e um cartão de visitas escapa de dentro. Bernardo o observa.
BERNARDO: Floricultura? A senhora é dona de uma?
DÁLIA: Sou sim. Inclusive, fica com esse cartãozinho. Pode aparecer lá a hora que quiser, vai ser um prazer te atender, doutor.
BERNARDO (Sorrindo): Pois vou aparecer sim, obrigado!
⎳Eles trocam sorrisos.
Cena 05 (Casa de Valentim/Quarto/Interior)
⎳Na mesinha do quarto, Açucena usa uma caneta preta para escrever um texto.
AÇUCENA: Carta… que coisa mais antiga! Mas não tem outra forma de fazer isso...
⎳Ela termina de escrever e lê e relê atentamente o que foi escrito. Logo ela coloca o papel em um envelope.
AÇUCENA: O endereço eu já consegui no celular do Enrico, agora só falta...
⎳Ela olha para sua penteadeira e vai até ela. Açucena pega seu perfume e dá leves borrifadas sobre a carta.
AÇUCENA (Sorrindo): Agora sim, perfeito! Essa mulher vai ter que ser muito burra de continuar com ele depois disso!
Cena 06 (NextDay/Corredor/Interior)
⎳Algumas pessoas saem de uma sala de reuniões. Giovanna está acompanhada de Capitu.
GIOVANNA: Você se saiu bem na reunião, Capitu.
CAPITU (Envergonhada): Você acha mesmo?
GIOVANNA: Claro! Eu te disse que não tinha nada demais para ter medo. O maior desafio mesmo é ter que aguentar todo esse tédio.
⎳Capitu ri discretamente.
GIOVANNA: Você vai sair pro almoço agora?
CAPITU: Bom, na verdade eu vou sim. Mas se precisar eu posso ficar aqui por mais tempo.
GIOVANNA: Não, imagina. Na verdade eu queria te chamar para irmos juntas, só para variar. Se você quiser, claro.
CAPITU (Sorrindo): Eu...
⎳Pietro interrompe a conversa.
PIETRO: Esqueceu que já tínhamos combinado de almoçarmos juntos, meu amor?
GIOVANNA (Contrariada): O quê? Tínhamos?
PIETRO (Cínico): Claro que sim, vai me dizer que não se lembra?
CAPITU (Sem graça): Não quero incomodar vocês dois. Mas obrigada mesmo assim pelo convite, Giovanna!
⎳Ela se retira, deixando Pietro com um semblante de satisfação.
Cena 07 (Restaurante/Interior)
⎳Giovanna e Pietro se encontram sentados em uma mesa.
GIOVANNA (Irritada): O que foi aquilo?! Não tínhamos combinado nada juntos, você nem costuma almoçar aqui nesse restaurante!
PIETRO: Eu ia te convidar primeiro. Aí quando vi que já tinha convidado a moça, inventei aquilo só para não ficar chato de você desfazer o convite. Eu quis te fazer um agrado, só isso.
⎳Ele passa a mão no braço da noiva fazendo carinho. É então que Giovanna vê Capitu chegando sozinha ao local e Pietro percebe.
PIETRO: O que ela está fazendo aqui? Será que não consegue se desgrudar dos patrões?
GIOVANNA: É natural que ela esteja aqui. Esqueceu que esse é o restaurante mais próximo da revista? Mas enfim, você já foi rude o suficiente com ela, vou chamar ela pelo menos para sentar aqui com a gente.
PIETRO: Que besteira, Giovanna! Tu não deve nenhuma satisfação àquela menina, foi uma coisa tão besta.
GIOVANNA: Eu gosto das coisas em pratos limpos, Pietro, e você sabe disso. Ela tá sozinha ali, não custa nada ser educado de vez em quando. Com licença...
⎳Ela tenta se levantar, mas Pietro segura seu braço.
PIETRO: Para com isso, Giovanna, fica aqui!
GIOVANNA (Séria): O que é isso, Pietro?! Solta meu braço, solta agora!
Cena 08 (Mansão Paranhos/Sala de Jantar/Interior)
⎳Todos os assentos estão desocupados, com exceção de um ocupado por Natalie, que termina sua refeição. A copeira chega ao local com um envelope em mãos.
CILENE: Dona Natalie, acabaram de deixar isso para senhora lá na recepção.
NATALIE: Para mim? Deixa eu ver.
⎳A empregada entrega o papel e se retira. Natalie o analisa atentamente.
NATALIE: Sem remetente...
⎳Ela abre o envelope e começa a ler a carta.
NATALIE (Lendo): “Você pode se dizer esposa de Enrico Paranhos, mas a verdadeira mulher dele sou eu! Um beijo, flor.”
⎳Seus olhos ficam esbugalhados pelo espanto.
NATALIE (Alterada): O quê? Que brincadeira de mau gosto é essa?!
⎳Ela sente um cheiro familiar e aproxima o nariz da carta, identificando o perfume da mesma.
— FLASHBACK (CAPÍTULO 02) —
⎳Enrico vai até o banheiro e deixa sua mulher falando sozinha novamente. Natalie se levanta com raiva e vai até o cabideiro, pegando a roupa deixada pelo marido e a elevando até o nariz, sentindo o cheiro.
NATALIE (Enfurecida): Ele sequer tenta disfarçar! Esse perfume de vagabunda... com quem o Enrico passou a noite?!
— FIM DO FLASHBACK —
NATALIE: Esse perfume… ah, não! Eu estava certa, o Enrico tem uma amante, ele tem alguma ordinária!
⎳Natalie levanta da cadeira fora de si.
NATALIE (Histérica): Ah mas eu vou descobrir quem você é, garota! Eu vou acabar com o circo desses dois cretinos!
⎳Ela pega um copo da mesa e o arremessa na parede. Seu corpo se contorce em ódio.
NATALIE (Narrando): Confirmar as minhas suspeitas só me fez ter mais ódio do Enrico… e essa garota, ah… essa aí não sabia com quem estava lidando!
Créditos:
05/10/2022
© GS Literatura.