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Três Vidas - Capítulo 06

Abertura:

Cena 01 (Hospital/Quarto/Interior/Manhã)

DÁLIA (Atônita): Não, não, não… me diz que isso não é verdade, doutor!

⎳Ele apenas lança um olhar de confirmação para ela.

DÁLIA: De quanto tempo?

BERNARDO: Aproximadamente umas 3-4 semanas… olha, Dália, foi um verdadeiro milagre você não ter perdido esse bebê com a queda que teve.

DÁLIA (Nervosa): Eu… ai meu Deus! Eu preciso ir para casa, não aguento mais ficar aqui.

BERNARDO: Antes de te liberar, preciso te receitar alguns remédios e cuidados que deve ter. E se me permite, vou tomar a liberdade de marcar uma consulta ainda para este mês, para começarmos o seu pré-natal. Tudo bem?

DÁLIA: Faz o que tiver que fazer, doutor. Eu só quero poder sair daqui logo!

Cena 02 (Hospital/Exterior)

⎳Açucena aparece ali e avista a irmã sentada em um banco. Ela se aproxima.

DÁLIA (Desamparada): Que bom que veio, Açu!

⎳Ela dá um forte abraço em Açucena.

AÇUCENA (Preocupada): O que aconteceu, Dália? Nunca te vi nesse estado, você falou coisa com coisa no telefone.

DÁLIA: Eu sofri um tombo no ônibus e um pessoal me trouxe para cá. Eles me esperaram fazer uns exames e eu nem soube como agradecer. Mas o pior você não sabe.

AÇUCENA: O quê?

DÁLIA: Me leva para casa, por favor, lá eu te conto tudo.

AÇUCENA: Calma, eu vou chamar um carro aqui pra gente.

⎳Ela tira o celular do bolso, e Dália espera aflita.

Cena 03 (Casa de Valentim/Sala/Tarde)

⎳Capitu retorna para casa e vê Dália, aparentemente abatida, conversando com Açucena no sofá.

CAPITU: Rolou alguma coisa?

⎳Em outro momento, Capitu está com as irmãs.

CAPITU: Um filho… mas isso era para ser uma coisa boa, Dália!

DÁLIA: Era para ser, mas não é! Eu não queria que esse filho tivesse surgido agora, justo nessa fase ruim que estamos enfrentando.

AÇUCENA: Mas e o pai desse filho, você sabe quem é?

DÁLIA: Eu ainda não sei se quero contar para ele sobre isso...

CAPITU: Mas como não? Você não fez nada sozinha!

AÇUCENA: Diz quem é o pai, Dália! Eu conheço?

DÁLIA (Reticente): É o… não tem como ser outra pessoa, é o Ronny!

AÇUCENA (Indignada): Logo com ele, meu Deus! Um pé rapado! Tu não podia ter arrumado alguém melhor não?

DÁLIA (Irritada): Qual parte do "eu não queria esse filho" você não entendeu?! É óbvio que eu não transei com ele esperando isso, a gente usou camisinha, como eu podia imaginar?

CAPITU: Mas quem é esse Ronny, gente?

AÇUCENA: Lembra de quando a Dália tava namorando com um marginal ano passado, e que quando foi se apresentar pro papai ele sequer apareceu? Então, é exatamente esse!

DÁLIA (Furiosa): Chega! Eu não quero julgamentos, Açucena. Não vê como você tá piorando toda essa situação que já é suficientemente ruim para mim?!

CAPITU: Calma, Dália! A partir de agora você vai precisar ter muita força.

DÁLIA (Histérica): Eu não aguento mais, Capitu! Desde que o nosso pai morreu o que eu mais tenho tido é força! Eu estou no meu limite, não aguento mais tanta desgraça que o tempo cai sobre minha vida. Eu cheguei a um ponto no qual eu não estou mais vivendo, eu estou sobrevivendo!

⎳Após o desabafo, Dália não consegue se segurar e desaba em lágrimas.

CAPITU: Então nós vamos sobreviver juntas, Dália, porque somos uma família! E eu e a Açucena vamos ser as melhores tias do mundo para esse bebê!

⎳Dália se sensibiliza e puxa as duas para um longo abraço.

DÁLIA (Chorando): Eu amo vocês!

AÇUCENA (Sorrindo): Nós te amamos!

⎳As paisagens da capital fluminense, e o pôr do sol reflete sobre as águas do mar.

Cena 04 (Apartamento/Interior/Anoitecer)

⎳Bernardo está em sua cozinha preparando algo no fogão quando o som da campainha o atrapalha. Ele vai até a porta e a abre.

BERNARDO (Sorrindo): Calebe, veio me visitar?

⎳Calebe dá um curto abraço no irmão e logo se acomoda no sofá da sala.

BERNARDO: Que bom que você veio aqui, cara. Como estão as coisas lá naquela casa?

CALEBE: Eu não sei dizer, Bernardo. O clima lá tá cada vez pior… Parece que tem algo acontecendo, mas sempre querem me poupar de tudo, sabe?

BERNARDO: Eu sei… eu vivenciei a mesma coisa, esqueceu?

CALEBE: Minha mãe tá meio abatida, sempre chega em casa com compras e mais compras, parece que usa isso como válvula de escape para os problemas dela. E meu pai, você conhece melhor do que eu, tá cada vez mais distante.

BERNARDO: Mas e você, Calebe? Como VOCÊ está?

⎳Calebe hesita antes de responder.

CALEBE: Eu… você sabe que eu não consigo te esconder nada. Eu não sei como eu estou, Bernardo, eu tô confuso. Eu gosto tanto do meu pai e da minha mãe, mas eles parecem estar vivendo numa guerra fria na qual eu preciso decidir um lado.

BERNARDO: Calebe, não é sobre eles que eu quero saber, é sobre você! Tenta esquecer por um momento que eles existem. Você consegue pensar em dar algum passo na sua vida sem pensar no Enrico ou na Natalie?

⎳Calebe fica sem resposta.

BERNARDO: Não precisa me responder, mas quero que reflita sobre. Tu já tá perto de fazer 18 anos, e quando isso acontecer, poderá fazer suas próprias escolhas, caminhar com os próprios pés, e aí você vai ter que seguir pensando em você, e não mais nos seus pais.

⎳Um silêncio se instaura.

BERNARDO: Mas deixando essa conversa de lado, o que acha de jantar aqui comigo? Já já fica pronto.

⎳Calebe sorri para o irmão, concordando com a ideia.

Cena 05 (Cemitério/Interior)

⎳Os poucos raios solares ainda presentes refletem sobre o rosto de Dália, iluminando o semblante triste da moça. Ela está de frente a um túmulo, no qual está o nome de Rosa.

DÁLIA: Mãe… eu queria tanto ter tido a oportunidade de ter você aqui nesse momento em que eu preciso tanto. Eu estou esperando seu neto, ou neta, e me dói tanto saber que você não vai ter a oportunidade de conhecer. É tão injusto essa criança crescer sem uma avó maravilhosa que eu tenho certeza que você seria, assim como foi uma mãe incrível também.

⎳Seus olhos começam a marejar.

DÁLIA (Chorando): Desde que você se foi, minha vida nunca mais foi a mesma, nunca mais! Eu queria ter aproveitado melhor, ter vivido mais e passado um longo tempo ao seu lado. Mas bastou essa doença infernal vir e tirar você de mim. E agora sem meu pai, eu sinto mais ainda o peso da responsabilidade cair sobre minha cabeça. De uma hora para outra eu tenho responsabilidade sobre uma casa, um filho e minhas irmãs. Eu que sempre pensei ser uma pessoa independente e madura, agora tô descobrindo que talvez não fosse bem assim...

⎳Ela agacha e coloca uma rosa vermelha sobre o túmulo.

DÁLIA (Sorrindo): É como você sempre disse… eu sou a sua dália e você é a minha rosa!

⎳Ainda emocionada, ela se levanta desestruturada e lentamente caminha em direção à saída. O sol antes reluzente, agora já não emana mais nenhuma luz, dando lugar à noite.

Cena 06 (Hotel/Quarto/Interior)

⎳No mesmo quarto habitual, Açucena espera por Enrico. O homem abre a porta e aparece com um buquê de flores em sua mão, o entregando para a mulher.

ENRICO (Sorrindo): São para você, Açucena!

AÇUCENA (Forçando um sorriso): Flores?

ENRICO: O quê? Não gosta?

AÇUCENA: Ah, Enrico! Pensa comigo, eu já tenho nome de flor, assim como as minhas irmãs, e a vida toda as pessoas viviam me dando uma florzinha aqui e ali por causa disso. Como se não bastasse, Dália é dona de uma floricultura. Acho que já chega de flor na minha vida, né?

ENRICO: Eu não tinha pensado por esse lado...

AÇUCENA: Ao invés de flores, eu poderia ganhar algo de mais valor, sabe?

ENRICO: Eu vou pensar nisso da próxima vez que nos encontrarmos. Mas não liga para isso, tenho um presente melhor para te dar agora mesmo...

⎳Ele se aproxima dela e lhe distribui diversos beijos ao longo do pescoço. Ele eleva o rosto até a boca de Açucena e os dois trocam beijos tomados pelo desejo. Enrico logo tira a própria camisa, e a mulher também faz o mesmo. Eles se jogam sobre a cama.

ENRICO (Ofegante): A cada vez tu se supera...

AÇUCENA (Sorrindo): Tá a fim de um segundo round?

⎳Ela tenta beijar o homem, que desvia e levanta da cama.

ENRICO: Não, melhor não. Eu preciso tomar uma ducha para poder voltar para casa. Conhecendo bem a Natalie ela já deve estar à minha espera.

AÇUCENA: Mas você bem que poderia mudar toda essa situação se quisesse...

ENRICO: Eu?

AÇUCENA: É ué. O mais lógico que você poderia fazer é se separar da sua mulher e me assumir!

ENRICO: O quê?!

⎳Ele ri, como forma de deboche.

ENRICO: Tu tá louca, garota? Eu sou casado há quase 20 anos, tenho um filho com a Natalie e dirijo uma revista na qual ela tem participação. Você acha que é fácil mudar essa situação assim?!

AÇUCENA: Mas como EU fico nessa história?

ENRICO: Você sabia que eu era casado quando me conheceu, e é assim que deve continuar! Eu gosto muito do que a gente tá tendo, mas não vai ser por isso que vou acabar com meu casamento.

⎳Ele dá um selinho nela e sai em direção ao banheiro. Açucena fica perplexa.

AÇUCENA (Pensamento): Como assim ele quer continuar casado com aquela mulher?!

⎳Uma ideia passa pela cabeça de Açucena e a seriedade toma do seu rosto. Um leve sorriso se forma nos lábios da moça.

Cena 07 (Casa de Margaret/Quarto/Interior)

⎳Margaret está sobre sua cama organizando alguns objetos e Capitu aparece.

MARGARET: Ô, Capitu. Chegou, minha filha?

CAPITU (Feliz): Sim, mãe. Eu queria que a senhora soubesse que eu consegui o emprego!

MARGARET (Sorrindo): Aquele que você me falou? Ai que bom, Capitu! Fico muito feliz viu. E como é lá? O salário é bom?

CAPITU: É, mãe. Felizmente vai dar para eu ajudar com as despesas.

MARGARET: Assim fico mais aliviada então. Tô aqui já arrumando uns objetos e encaixotando tudo. Já que no final de semana vamos mudar lá para casa do Valentim.

CAPITU: Você quer ajuda?

MARGARET: Faz melhor, Capitu. Termina aqui de embalar essas coisas que eu vou tomar um banho.

⎳Ela sai e Capitu suspira fundo.

CAPITU: Ai, Margaret...

⎳Capitu começa a embalar alguns porta-retratos e coloca em algumas caixas, quando vê um que contém uma foto dela ainda criança com Valentim.

CAPITU (Narrando): Ah, pai… eu queria tanto que o senhor ainda estivesse aqui… queria que pudesse sentir orgulho de mim! A sua ida me obrigou a me tornar uma mulher mais madura. Às vezes o desejo de desistir me toma por completo, mas eu sei que não é isso que o senhor quer, e por isso a força de vencer todos os obstáculos vem e me levanta novamente.

⎳Ela abraça o porta-retrato com os olhos marejados.

(FIM DO CAPÍTULO)

Créditos:

03/10/2022

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