Três Vidas - Capítulo 04
Abertura:
Cena 01 (Rua/Noite)
⎳Numa rua deserta, uma moto ocupada por dois homens para e o rapaz da garupa desce da motocicleta, retirando o capacete. Em seguida ele tira seu capuz e revela-se ser Ronny. Ele se senta no meio-fio e coloca as mãos sobre a cabeça.
RONNY (Lacrimejando): Deu tudo errado, cara!
⎳Ele esfrega os dedos nos olhos e é atordoado pela infinidade de pensamentos que passam em sua mente.
RONNY (Fora de Si): Eu tirei a vida de uma pessoa, tu tem noção disso?!
HOMEM (Impaciente): Qual foi, Ronny, agora não é hora pra chorar! Ninguém tem culpa se aquele coroa quis reagir, tu fez o que tu tinha que fazer. E agora que a merda já tá feita, levanta daí porque a gente não pode ser pego aqui. Ou "cê" vem logo, ou eu te largo aí sozinho!
⎳As palavras ditas pelo homem fazem Ronny acordar pra realidade. Ele balança a cabeça se negando a acreditar no que ocorreu, limpa os olhos marejados e volta para moto.
Cena 02 (Hotel/Quarto/Interior)
⎳Açucena está em seu segundo encontro com Enrico. Ela está no banheiro, enquanto o homem descansa na cama. Ele escuta o celular de Açucena tocar sobre a mesinha de cabeceira e o pega.
ENRICO: Ei, garota, tem alguém te ligando aqui.
⎳A mulher retorna e pega seu aparelho, verificando de quem se trata.
AÇUCENA: Que estranho, minha mãe me ligando agora...
⎳Ela quase rejeita a ligação, mas algo lhe diz para fazer o contrário.
AÇUCENA: Oi, mãe.
INDIRA (Voz Embargada): Que bom que atendeu, Açucena!
AÇUCENA: O que foi? Que voz é essa?
INDIRA (Voz): Aconteceu uma coisa… com seu pai...
⎳A face incrédula de Açucena mostra que nada mais precisava ser dito para entender o que acontecera.
⎳As intermináveis horas se passam e dão início a um domingo frio e cinzento.
Cena 03 (Velório/Interior/Manhã)
⎳Uma multidão está presente no local. As dezenas de pessoas que acompanham o velório de Valentim evidenciam o quanto o homem era querido por todos. Os presentes prestam condolências à família. Açucena está ao lado do caixão abraçada com Capitu, que chora ao ponto de soluçar. Dália permanece em um canto, isolada e com algumas lágrimas escapando dos olhos. Depois de algumas horas o fluxo de pessoas diminui. Capitu está sentada em uma cadeira ao lado de Açucena, tentando dormir com a cabeça recostada sobre o ombro da irmã. Indira e Margaret apresentam um semblante melancólico e conversam.
MARGARET (Preocupada): Eu tenho medo pela minha menina, meu Deus! Não vai ser fácil superar o trauma de ver o próprio pai morrer assim dessa forma.
INDIRA: Como a Dália, que viu a mãe falecer numa cama de hospital...
MARGARET: É, eu lembro bem quando a Rosa se foi. Não só a Dália, como a família toda se abalou.
INDIRA: O Valentim então...
MARGARET: Mas na minha opinião ele teve uma parcela de culpa na morte dela...
INDIRA: Margaret, não fala uma coisa dessas! A Rosa ficou sim muito doente depois que descobriu as traições do Valentim, mas de qualquer forma o câncer dela foi muito agressivo.
MARGARET: Mas não podemos reclamar não, apesar de tudo ele era um homem muito bom para nós e para nossas filhas.
INDIRA: Eu fui muito feliz com ele, mesmo que por pouco tempo.
MARGARET: E eu também fui muito...
⎳Indira se levanta e vai até caixão. Segurando fortemente um terço, ela fecha os olhos e inicia uma reza. Depois de mais algumas horas, é visto no cemitério diversos momentos do sepultamento de Valentim acontecendo.
⎳Uma passagem de três semanas ocorre e cada uma reage de uma forma diferente ao luto do pai. Dália começa a focar cada vez mais no trabalho. Açucena tem encontros frequentes com Enrico, o que aumenta as desconfianças de Natalie. E Capitu se isola em sua casa, em profundo estado de melancolia.
Cena 04 (Academia/Interior/Manhã)
⎳Uma música ambiente toca. Poucas pessoas se encontram ali, e duas em especial chamam a atenção. Trata-se de Maitê e Giovanna Lara, que estão caminhando em suas respectivas esteiras, uma ao lado da outra.
GIOVANNA: Eu gosto do Pietro, ele é uma pessoa maravilhosa para mim. Mas eu sinto que não é quem eu quero levar para vida, Maitê, entende?
MAITÊ: Entendo, Lara… mas você não pode iludir o garoto, não é?
GIOVANNA: Não, isso não. Eu quero pensar melhor na nossa relação, para ter certeza se levo ou não o noivado adiante.
MAITÊ: É. Eu já tô acabando aqui. O que acha de tomarmos um suco ali na lanchonete?
GIOVANNA: Claro!
⎳Giovanna para a esteira e as duas vão ao local sugerido por Maitê.
Cena 05 (Mansão Paranhos/Jardim/Exterior)
⎳Calebe surge na área externa da casa. Seu avô está sentado em uma mesa, jogando xadrez sozinho.
CALEBE: Vô, por acaso o senhor viu minha mãe passar por aqui? Já perguntei à Cilene, mas ela não faz ideia.
BENJAMIN: Mesmo que tivesse passado, eu não iria me desconcentrar do meu jogo para prestar atenção na Natalie.
CALEBE (Sem jeito): Tudo bem então...
⎳O menino tenta se retirar, mas seu avô o chama.
BENJAMIN: Espera aí, garoto. Ao invés de procurar por sua mãe, por que não vem aqui jogar comigo?
CALEBE: Pensei que preferisse jogar sozinho.
BENJAMIN: E prefiro. Mas às vezes é bom colocar nossas habilidades em prática.
⎳Calebe se senta junto ao avô e os dois iniciam uma partida.
Cena 06 (Lanchonete/Exterior)
⎳As mulheres estão sentadas à uma mesa. Giovanna coloca um canudo entre os lábios e bebe um pouco de sua vitamina de frutas.
MAITÊ: Já que tocou no assunto da revista, como vão as coisas por lá? Você sabe que eu e a Natalie temos uma parte, mas mal sabemos administrar alguma coisa.
GIOVANNA: As coisas vão bem, mas sinceramente, ter que suportar o seu cunhado como chefe não é uma tarefa fácil. (Ri)
MAITÊ: O Enrico não é uma pessoa fácil de lidar mesmo, não é a toa que a Natalie está nessa situação...
GIOVANNA: Qual situação?
MAITÊ (Disfarçando): Nada demais, só algumas coisas que ela comentou comigo.
GIOVANNA (Desconfiada): Ah… mas me conta, você tinha dito a respeito do Charles, aconteceu algo mais entre vocês?
⎳Maitê solta um sorriso tímido e as duas continuam conversando.
Cena 07 (Casa/Interior/Quarto)
DÁLIA: Então você quer me dizer que está gostando dele?!
AÇUCENA: Credo, Dália! Não vem distorcer as coisas que eu falo! Eu disse que eu curti ele, quero me encontrar muitas outras vezes...
DÁLIA: Açu, tu tá se metendo em encrenca! Pegar homem comprometido sempre termina em merda.
AÇUCENA: Mas que culpa eu tenho? Ele é bonito, atraente, rico, é tudo que eu preciso para mim. Ele tem me ajudado desde que o papai morreu, que mal tem isso?
DÁLIA: Você precisa ser muito tapada mesmo para não ver mal nisso, né. E a esposa dele fica como? E os filhos que você disse que ele tem?
AÇUCENA: Ai não bota mais pilha na minha cabeça. Eu só quero curtir, e se chegarmos a ter algo mais sério, vai ser melhor ainda!
DÁLIA: Você não tem jeito, meu Deus!
⎳Margaret abre a porta do quarto de repente, interrompendo a conversa.
MARGARET: Tão falando de que aí? Tira o nome de Deus do assunto, porque conversa de puta ele não escuta! A Indira tá chamando todo mundo pra sala.
Cena 08 (Sala/Interior)
⎳As cinco mulheres estão reunidas. Capitu apresenta um semblante abatido, Açucena esbanja tédio em seu rosto e Dália está inquieta.
DÁLIA: Que bom que veio, Capitu. Não nos vimos desde que tudo aquilo aconteceu.
MARGARET: É que não tem sido fácil para ela, coisinha.
INDIRA: Bom, vocês sabem porque nós estamos aqui. Não dá mais para continuar assim. Infelizmente sem o Valentim aqui não dá para manter todos os gastos que tínhamos antes, a ajuda dele era essencial para continuarmos de pé, mas agora...
DÁLIA: Escuta, eu não sei se é o melhor momento para termos essa conversa. Eu tô um pouco enjoada e preciso voltar logo para floricultura.
AÇUCENA: Pois é. Eu também acordei de ressaca, não estou afim de ficar aqui de papinho.
INDIRA (Séria): O assunto é sério, meninas, e não dá para fugir dele. Sustentar três casas não é para qualquer um, manter o luxo de vocês...
MARGARET (Irônica): Como o luxo de certo alguém em querer morar em apartamento caro...
INDIRA: Isso mesmo, Margaret. Meu apartamento, os seus gastos excessivos, a mesada da Açucena… nesse último mês o movimento da padaria caiu muito. Nós precisamos pensar em alguma solução eficaz para sairmos dessa situação, ou então...
MARGARET: E se a Dália vendesse aquela floricultura? Aquilo mal dá dinheiro mesmo, talvez alguém comprando daria um destino melhor para ela.
DÁLIA: Não, isso não. Eu nunca deixaria venderem a floricultura que foi deixada por minha mãe!
⎳Uma pequena discussão se inicia. Capitu, que até então não havia dito uma única palavra, decide intervir.
CAPITU (Séria): Já está óbvio o que devemos fazer.
⎳Todas prestam atenção na moça.
CAPITU: Vamos nos livrar de aluguel, de gastos desnecessários, vamos todas morar juntas, aqui nessa casa!
DÁLIA: O quê?!
CAPITU: Ninguém disse que seria fácil, mas agora temos que nos sacrificar. Na padaria eu não trabalho mais, mas posso conseguir um emprego com um salário melhor. Enquanto vocês duas, mãe e Indira, podem perfeitamente começar a cuidar da padaria, agora que não tem mais meu pai lá para fazer isso.
INDIRA: Mas nós cinco morando juntas? Em que mundo isso daria certo?
MARGARET: Bom, espaço é o que não falta nessa casa...
CAPITU: Então é isso que vamos fazer. Eu conversei muito com o papai antes dele partir, e eu quero tomar um rumo na minha vida. Só me resta saber se vocês todas, sem exceção, vão fazer o mesmo também.
⎳Receosas, todas balançam a cabeça em sinal de positividade, concordando com Capitu. Ela, pela primeira vez em tempos, abriu um sorriso animador.
CAPITU (Narrando): Toda aquela situação não era nada fácil para mim, mas ali eu tinha esperança de que a minha vida teria uma guinada!
(FIM DO CAPÍTULO)
Créditos:
29/09/2022
© GS Literatura.