Três Vidas - Capítulo 03
Abertura:
Cena 01 (Mansão Paranhos/Quarto/Interior/Manhã)
⎳Natalie vasculha os bolsos do paletó do marido.
NATALIE (Pensamento): Não é possível que não tenha nada aqui...
⎳A mulher não encontra nada e ouve o som do chuveiro sendo desligado. Ela rapidamente volta para cama, e Enrico chega com uma toalha enrolada na cintura.
NATALIE: Você não vai mesmo me dizer onde esteve?
ENRICO: Eu não vejo necessidade nisso, Natalie. Você tá querendo o que? Provocar uma briga? Porque eu sinceramente não estou com a mínima paciência para esse tipo de desentendimento.
⎳A mulher se cala perante a rispidez do marido.
TRÊS DIAS SE PASSAM
Cena 02 (Floricultura/Interior/Manhã)
⎳Dália está cuidando de algumas plantas, quando um cliente bem apessoado entra no lugar.
DÁLIA: Bom dia, senhor! Posso ajudar em alguma coisa?
PIETRO: Eu gostaria de um buquê de girassóis. De preferência um bem chamativo para agradar uma pessoa especial.
DÁLIA (Sorrindo): Uma namorada?
PIETRO (Sério): Não acho que isso diga respeito a você.
DÁLIA (Desconfortável): Sim, claro...
⎳Ela se retira com um sorriso sem graça e depois entrega o buquê ao homem, que efetua o pagamento e vai embora.
DÁLIA: Essa gente... o que tem de dinheiro, tem de grosseria...
Cena 03 (Editora NextDay/Sala/Interior)
⎳Uma mulher está sentada na cadeira de seu escritório, enquanto acompanha algumas coisas em seu tablet. Uma batida na porta a desconcentra e logo Pietro aparece. Ele tira o buquê que mantinha escondido atrás das costas e o estende até a mulher.
PIETRO (Sorrindo): Atrapalho?
GIOVANNA LARA (Sorrindo): Imagina, Pietro.
⎳Ela pega as flores e dá um curto beijo no noivo.
PIETRO: Você se lembra que eu te dei esses girassóis no nosso primeiro encontro?
GIOVANNA: Claro que eu lembro, e você sabe que eu amo.
PIETRO: Eu sei que já faz alguns dias que não saímos, mas o clima lá em casa está péssimo. Já sabe, né? Tudo culpa daquela mulher do meu pai...
GIOVANNA: Eu entendo, não precisa me dar explicações. De qualquer forma, nos vemos todos os dias aqui, então está tudo bem.
PIETRO: Mas eu queria te levar a algum restaurante desses que você gosta, te dar algum presente também. O que você gostaria de ganhar? Pode falar qualquer coisa, eu te dou!
⎳O desconforto predomina na face da mulher, e indica também sua falta de interesse em manter esta relação.
Cena 04 (Sala de Jantar/Interior)
⎳Todas as cinco mulheres da família estão reunidas à mesa junto a Valentim.
DÁLIA: Engraçado, eu me lembro bem desses almoços de sábados. Se reunia todo mundo aqui em casa e a gente fazia isso toda semana.
INDIRA: Confesso que fiquei curiosa. Há tempos não ficamos juntos assim. Tem algum motivo especial, Valentim?
VALENTIM: É exatamente por isso, já faz tempo que não ficamos reunidos. Tá certo que nunca fomos uma família convencional ou muito unida, mas eu sinto falta de ver minhas meninas juntas aqui. Sinto falta principalmente de quando eram crianças, sempre que me encontrava me davam um beijo na bochecha e pediam a benção. O tempo passou rápido demais, Indira e Margaret, nós já estamos aqui velhos e as meninas logo nos alcançam também.
MARGARET: Eu não tô velha coisa nenhuma, se bobear aparento ser mais nova que a Capitu...
CAPITU: Termina de falar, pai.
VALENTIM: Eu não tenho muito o que dizer. Como eu falei, passou tudo muito depressa, e ver vocês três assim adultas me faz pensar que logo o meu tempo acaba, isso eu não posso evitar. Já faz anos que a Rosa se foi, e ela gostaria de ver eu falando essas coisas aqui para vocês.
⎳Ao ouvir o nome "Rosa", Dália se sente tocada ao lembrar da mãe.
VALENTIM: Mas só quero mesmo aproveitar cada segundo ao lado de vocês, porque podem ter certeza, minhas filhas, nesses meus 55 anos de vida, vocês foram as coisas mais preciosas que eu ganhei!
⎳As três irmãs se olham comovidas com o discurso do pai e se levantam dando um abraço caloroso no homem.
AÇUCENA: Ah, pai! O senhor ainda vai viver muita coisa do nosso lado, viu?
VALENTIM (Sorrindo): Pode até ser minha filha, mas o fato de nós estarmos tão desunidos ultimamente, me deu uma vontade enorme de dizer todas essas coisas.
⎳Um abraço ainda mais forte é dado, e até mesmo Indira e Margaret trocam um sorriso cúmplice.
Cena 05 (Restaurante/Interior)
⎳Natalie está sentada em uma mesa, esperando ansiosa. Até que sua convidada chega e se junta à ela.
NATALIE: Que bom que chegou, Maitê! Eu preciso tanto desabafar com você, minha irmã.
MAITÊ (Preocupada): O que aconteceu? Assim que recebi sua mensagem vim direto pra cá.
NATALIE: Já faz três dias que aconteceu, mas só agora eu tô tendo coragem pra te contar isso… eu acho… ou melhor, tenho quase certeza... (Nervosa): Que o Enrico está se encontrando com outra mulher!
MAITÊ (Surpresa): Como?! Me conta isso melhor, o que você descobriu?
⎳Natalie conta todos os detalhes e sua irmã escuta atentamente.
Cena 06 (Barracão/Interior)
⎳Ronny fala ao celular com o mesmo amigo de antes.
RONNY: E tá tudo certo para hoje a noite, né?
(VOZ): Tá sim, se alguma coisa der errado, é por vacilo teu.
RONNY: Vai dar tudo certo, pô. O esquema vai ser rápido, não tem como dar errado, sacou? Não tem!
Cena 07 (Restaurante/Interior)
MAITÊ: Que situação, Natalie... mas seja sincera, você nunca desconfiou que o Enrico desse os pulinhos dele? Porque para mim isso sempre foi tão claro.
NATALIE: Antes eu não queria enxergar, Maitê. Porém agora parece que ele não faz mais questão nenhuma de esconder. Eu tenho medo de que ele esteja jogando a última pá de cal no nosso relacionamento, e eu não quero isso!
MAITÊ: E o que você quer? Insistir num casamento fracassado e desgastante? Que futuro você espera dessa relação?
NATALIE: Eu não vou acabar com um casamento de mais de 18 anos assim, do nada! E ainda tem o Calebe, ele é só uma criança, não vou dar a ele o mesmo trauma que eu tive por crescer com pais divorciados.
MAITÊ: Desculpa, Natalie, mas o Calebe já é praticamente um homem, tem 17 anos, criança ele não é! E se possuímos algum trauma, se deve muito mais à forma pela qual fomos criadas, do que pela separação em si.
NATALIE: Não adianta mais me dizer essas coisas. Eu já sei exatamente o que eu vou fazer.
MAITÊ: Qual decisão irá tomar?
NATALIE (Séria): Eu não vou entregar o meu homem de bandeja para qualquer uma, eu vou descobrir com quem o Enrico está se envolvendo, e vou acabar com esse caso eu mesma! Eu quero lutar pelo meu casamento!
MAITÊ (Irritada): Pois então boa sorte em jogar fora a última gota de amor próprio que te resta. Se é que eu algum dia você sequer soube o que é isso!
⎳Maitê pega sua bolsa e sai decepcionada com a irmã.
Cena 08 (Padaria/Interior/Noite)
⎳Poucos clientes circulam pelo comércio. Capitu e o pai se preparam para fechar o caixa.
VALENTIM (Sorrindo): Boa noite, senhor!
⎳O último freguês sai e logo os funcionários também vão embora. Valentim fica a sós com a filha.
VALENTIM: Capitu, vem cá, minha filha.
CAPITU: Eu fiz alguma coisa de errado, pai?
VALENTIM: Não não, pelo contrário. Eu queria me desculpar com você por aquele dia. Eu sei que eu perdi a cabeça de ver você parada ali, imóvel enquanto a cliente te cobrava o troco.
CAPITU: Tá tudo bem, pai, isso já passou.
VALENTIM: Eu sei, mas escuta, não precisa fingir para pra mim que você gosta de trabalhar aqui, porque eu sei que não gosta.
⎳Capitu desvia o olhar, evitando contato visual com o pai.
VALENTIM: Você passou anos fazendo faculdade para no fim acabar aqui atrás desse balcão. Só quero te dizer que não precisa viver da minha vontade, se você quiser sair daqui eu entendo, até porque isso daqui requer muito de você.
CAPITU: Eu… o senhor disse tudo que eu pensava...
VALENTIM: Eu estava sendo um péssimo pai em querer te prender aqui, mas eu prometo que isso não vai mais acontecer. E mais, eu vou te incentivar em qualquer emprego que você quiser seguir.
CAPITU (Emocionada): Obrigada, pai!
⎳Os dois se abraçam.
VALENTIM: Te amo, minha filha!
CAPITU (Sorrindo): Também te amo, pai.
⎳Valentim vai até a porta do lugar.
VALENTIM: Agora vamos indo porque já passou da hora...
⎳Valentim tenta fechar a porta do comércio, mas alguém do lado de fora coloca o pé impedindo. O senhor se assusta e as portas são levantadas novamente por dois homens encapuzados, que sacam uma arma e apontam para ele. Capitu se apavora e fica inerte.
ASSALTANTE 1 (Agitado): Passa tudo que tu tem aí, coroa!
VALENTIM (Nervoso): Calma, calma...
ASSALTANTE 1: Calma é o caralho! Tá achando que a gente tá brincando, é? Vai lá nela, mano, vai lá!
⎳O segundo assaltante ouve os comandos e vai até Capitu.
ASSALTANTE 2: Anda logo, pô! Se mexe ou eu vou ter que resolver isso de outro jeito...
⎳Ele encosta a arma na cintura de Capitu e depois a empurra, fazendo com que caia no chão. Desnorteado, Valentim pega qualquer objeto próximo e vai na direção do bandido com a intenção de defender a filha.
VALENTIM (Fora de Si): A MINHA FILHA NÃO!
⎳O segundo assaltante se vira depressa e em um ato de reflexo efetua um disparo no peito de Valentim.
ASSALTANTE 1: Ih, sujou, mermão, vambora daqui!
⎳Valentim cai no chão agonizando. O homem responsável pelo tiro se desespera e vai embora junto ao outro. Em pânico, Capitu se aproxima.
CAPITU (Aflita/Chorando): MEU DEUS, PAI! FALA ALGUMA COISA. NÃO ME DEIXA!!!
⎳Fraco, Valentim cerra os olhos e dá seu último suspiro. A moça solta um grito agudo e se atira sobre o corpo do pai, se debulhando em lágrimas.
CAPITU (Narrando): Eu vi a vida do meu pai passar diante dos meus olhos. Pela primeira vez eu estava disposta a lutar, reagir, gritar... mas nada mais podia ser feito.
(FIM DO CAPÍTULO)
Créditos:
28/09/2022
© GS Literatura.