Três Vidas - Capítulo 01
Abertura:
Rio de Janeiro, 2017.
⎳O sol se despontando no horizonte, indicando a chegada da manhã. Em uma rua deserta, uma moça caminha apressadamente. Ela para em frente a uma casa e lentamente abre o portão. Tirando os seus saltos altos, sorrateiramente ela vai até a porta e a abre com cautela, entrando na residência.
Cena 01 (Casa/Sala/Madrugada)
⎳Ao fechar a porta, é surpreendida por Valentim, que está à sua espera.
AÇUCENA (Assustada): Ai, que assombração, pai! Não era para você tá na cama uma hora dessas?!
VALENTIM: Diferente de você, as pessoas trabalham, Açucena... Você não perde uma né, já veio logo aqui para casa, porque sabe o sermão que vai ouvir de sua mãe se aparecer lá nesse horário.
AÇUCENA: Minha mãe não entende que eu preciso viver, por isso eu venho pra cá, você não fica me julgando como ela.
VALENTIM: Eu sou burro, isso sim! Certa tá sua mãe de querer te acordar para realidade. Até quando você pretende viver assim?! Passa a noite toda fora de casa, não trabalha, não estuda, se comporta como uma adolescente!
AÇUCENA: Paizinho, olha aqui. Eu bebi demais, caminhei horrores para chegar aqui, então agora eu vou dormir e você deixa o sermão para amanhã, ok?
VALENTIM: Vai dormir logo, daqui a pouco sua irmã acorda também...
⎳Açucena sorri e dá um beijo no rosto do pai, em seguida vai em direção ao quarto. As horas passam.
Cena 02 (Cozinha/Manhã)
⎳Valentim e Dália estão sentados à mesa tomando café. Uma batida na porta é ouvida e logo Capitu entra no local.
VALENTIM (Sorrindo): Bom dia, minha filha!
CAPITU: Bom dia, pai! Passei aqui para irmos juntos à padaria.
VALENTIM: Só vou no meu quarto rapidinho e já vamos.
⎳Ele sai e as irmãs ficam sozinhas.
DÁLIA: Adivinha só quem tá aí...
CAPITU: Quem?
DÁLIA: A Açu. Chegou há pouco tempo e pelo visto não vai acordar tão cedo.
CAPITU: Ai ai, essa aí não toma jeito nunca...
⎳Capitu balança a cabeça em negação e Dália apenas ri.
⎳Do lado externo uma floricultura com um letreiro escrito "Rosa de Prata".
Cena 03 (Floricultura/Interior)
⎳Dália se encontra debruçada sobre o balcão.
DÁLIA (Entediada): Só eu mesmo para pensar que isso aqui fosse dar movimento em plena manhã de Carnaval, se nem em dia normal...
⎳Um vaso com uma rosa está a sua frente, com a qual ela conversa.
DÁLIA: É, mãe, pelo visto eu não tenho o mesmo jeito para esse negócio igual você tinha.
Cena 04 (Padaria/Interior)
⎳Um intenso fluxo de pessoas transita pelo local. Valentim atende a todos os clientes rapidamente, enquanto Capitu se esforça para fazer o mesmo.
VALENTIM (Irritado): Que lerdeza é essa, Capitu? Nesse ritmo todo mundo vai acabar desistindo de ser atendido!
CAPITU (Nervosa): Calma, pai. Eu tô fazendo o que eu posso...
⎳Capitu dá o troco para uma senhora, que logo percebe que falta uma parte do dinheiro.
SENHORA (Impaciente): Ô minha filha, eu te dei uma nota de 10. Era para você me devolver 7 reais, e não 2!
⎳Diante da situação, Capitu fica tensa e simplesmente trava. Percebendo o ocorrido, Valentim se aproxima.
VALENTIM (Sorrindo): Perdão, minha senhora! Aqui tá o dinheiro que tava faltando. Isso não vai mais se repetir viu, volte sempre!
⎳A mulher se rende à gentileza de Valentim e sai da padaria satisfeita.
VALENTIM: O que foi isso, minha filha? Era só entregar mais uma nota de 5 para a mulher e pronto!
CAPITU (Tensa): O senhor sabe que eu não me dou bem com essa pressão toda...
VALENTIM: Tudo bem, Capitu. Vai lá para dentro, vê no que você pode ajudar lá. Melhor do que ficar aqui atrapalhando.
⎳A mocinha sai nervosa e Valentim volta a lidar com os fregueses.
⎳A noite cai sobre a cidade.
Cena 05 (Mansão Paranhos/Interior)
⎳No interior do local todo o luxo da residência, refletindo o alto poder aquisitivo de qualquer que seja a família que more ali. Na sala de jantar, estão sentados à mesa os cinco membros da família.
BENJAMIN (Resmungando): Mais um "jantar especial". Já é o segundo só esse mês..
ENRICO: Aliás, que de especial não tem nada. Qual é a ocasião da vez, Natalie?
NATALIE (Sorrindo): Especial é sim, e muito! O Calebe ficou em primeiro lugar na olimpíada de matemática de seu colégio e ganhou uma medalha de ouro!
PIETRO: Na minha época de escola eu também ganhei inúmeras medalhas, e não precisei de nenhuma homenagem para provar o meu valor. Não precisava de nenhuma dessas frescuras aqui!
CALEBE (Envergonhado): Eu falei para ela que não precisava de nada disso, mas insistiu...
NATALIE (Se controlando): Acontece, Pietro, que se você tivesse uma mãe zelosa como eu, pode ter certeza que ela valorizaria seu esforço.
PIETRO: Escuta aqui, quem você pensa que é para falar assim da minha mãe?! Você não é superior a ela! Assim como o Calebe não é superior a mim!
ENRICO (Alterado): CHEGA! Já basta de discussão! Na próxima vez, pense antes de armar um circo desses, Natalie!
⎳Ele se levanta e vai em direção à saída do local.
NATALIE (Nervosa): Enrico, aonde você vai?
ENRICO (Irônico): É Carnaval, não é? Pois eu tenho certeza que as comemorações estão mais organizadas que esta casa!
⎳Enrico se retira batendo a porta com força. Natalie fica inconsolável e Calebe chega por trás dela a confortando.
CALEBE: Não fica assim não, mãe, já já ele volta...
NATALIE (Chorando): Volta mesmo, Calebe. De madrugada e bêbado ainda por cima!
PIETRO (Murmurando): Francamente...
⎳Irritado, o rapaz deixa o recinto. Benjamin observa toda a situação calmamente. Ele começa a se servir, sem dar importância ao ocorrido.
Cena 06 (Casa de Valentim/Quarto)
⎳Açucena se olha no espelho enquanto se maquia, passando delineador.
DÁLIA (Impaciente): Vamos logo, Açucena! Se a gente chega tarde demais não vamos aproveitar nada!
AÇUCENA: Ih, meu amor, tu que pensa. Quanto mais tarde, mais interessante fica.
DÁLIA: É, mas daqui a pouco eu já vou estar morrendo de sono e querendo voltar para casa logo.
AÇUCENA: Ah, pois eu não tô com um pingo de sono.
DÁLIA: Claro que não, acordou já passava do meio-dia né. Não teve que madrugar como eu.
⎳Como resposta, Açucena apenas revira os olhos. Ela termina de se maquiar e olha para a irmã, ajeitando os cabelos.
AÇUCENA (Sorrindo): Diz aí, eu tô gata ou não tô?
DÁLIA: Tá, Tá. Agora vamos!
Cena 07 (Sala/Interior)
⎳As duas passam apressadas pelo lugar. Capitu e o pai estão sentados no sofá assistindo televisão.
VALENTIM: A Capitu não vai com vocês?
CAPITU: Imagina, pai. O senhor sabe que eu não gosto desse tipo de festa.
AÇUCENA: Exatamente. E nós estamos com pressa. Tchauzinho, pai!
⎳Ela dá um beijo em seu pai e logo depois sai com Dália.
CAPITU: Acho que eu já vou dormir...
VALENTIM: Sua mãe sabe que está aqui? Não gosto que ela fique preocupada por dormir fora de casa.
CAPITU (Murmurando): Como se ela se importasse...
Cena 08 (Avenida)
⎳Uma grande aglomeração se forma no local. As pessoas dançam de forma agitada. Paredões de sons tocam uma música alta. Dália e Açucena aparecem entre a multidão, a mais nova Açucena se encontra beijando um homem desconhecido, logo depois se desvencilha dele e segue com a irmã.
DÁLIA: Esse foi o terceiro ou o quarto?
AÇUCENA: Eu acho que o quinto. Fica aí moscando que vai acabar a noite sem pegar ninguém!
DÁLIA: Ah, sei lá sabe, acho que essa noite eu não vou me dar bem...
⎳De repente, um forte som de trovão ecoa e logo algumas gotas d'água começam a cair. A multidão se dispersa rapidamente, buscando se proteger da chuva iminente.
Cena 09 (Casa de Valentim/Sala)
⎳Valentim está da mesma forma de antes, quando começa a ouvir batidas desesperadas na porta. Ele vai abrir depressa e Margaret entra afoita no lugar.
VALENTIM (Preocupado): Margaret?! O que aconteceu?
MARGARET (Irritada): Eu tava passando por perto quando essa chuva começou. Corri para cá, mas olha aí, fiquei toda encharcada!
VALENTIM: Peraí que eu vou pegar uma toalha para você...
MARGARET: Que pegar o que para mim, eu já sei o caminho, dá licença!
⎳Ela vai até o quarto do homem, que a segue.
Cena 10 (Bar/Interior)
⎳Um tumulto se forma no interior do estabelecimento. Dália e Açucena conseguem se sentar ao balcão.
AÇUCENA: Nossa noite foi por água abaixo!
DÁLIA: Literalmente né.
⎳Dália sinaliza para o barman.
DÁLIA: Vê duas caipirinhas aqui pra gente, fazendo favor.
⎳Açucena começa a analisar o local, prestando atenção nas pessoas presentes ali. Ao olhar mais a frente, um homem em especial lhe desperta curiosidade. É Enrico, que está recostado no balcão com um copo de uísque na mão. Ao ver a moça, ele lança um sorriso de canto para ela, que retribui. Dália percebe a situação.
DÁLIA: Mal chegamos aqui e já tá secando outra pessoa? Mas não se empolga não. Olha lá a aliança no dedo dele. Sinal de que você deve ficar longe, Açu!
⎳Ao invés de desistir, de alguma forma, a fala proferida pela irmã faz com que Açucena se sinta ainda mais atiçada. Ela ignora todos ao seu redor e se aproxima de Enrico. Estando os dois próximos, ambos trocam profundos olhares, e foca-se na mulher, que emite um sorriso de orelha a orelha.
AÇUCENA (Narrando): Naquele momento eu não sabia, mas foi ali que eu conheci o homem que mudaria a minha vida para sempre!
(FIM DO CAPÍTULO)
Créditos:
26/09/2022
© GS Literatura.