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Solos de Amizade - Episódio 01

>> O Reencontro

MINAS GERAIS, VALE DOS VENTOS.

2019.

A pacata cidade é vista de cima, sendo o destaque.

CENA 01 (CASA|INTERIOR|MANHÃ)

𝄞 Helena lava a louça enquanto Ana toma seu café da manhã, ajeitando-se para sair para o trabalho.

ANA (levando a xícara à boca): Dormiu bem essa noite, vó?

HELENA: Que nada, fia. Essa coluna tá me judiando cada dia mais.

ANA: A senhora vive reclamando dessas dores! Vem cá, senta. Tá assim porque é teimosa demais!

𝄞 Helena sorri, descontraída.

HELENA: Teimosa? Cê falando isso? Lembrei foi da sua mãe agora… (ri)

𝄞 Helena se senta. Ana demonstra um semblante triste, desviando o olhar.

ANA: Ela num tá mais aqui, vó.

𝄞 Helena segura a mão de Ana e a olha firme, mas com ternura.

HELENA: Tá sim, minha filha. Sempre esteve. Olha ao seu redor, pra essa casa, pra você mesma. Tudo aqui lembra sua mãe. E vê só a mulher que você virou. Se ela tivesse aqui, ainda ia te chamar de “minha menina”. Mas cê cresceu, e ela foi embora antes de mim, quando devia era ser o contrário. Mas é assim que a vida funciona, Ana. O que importa é que cê tá aqui. Agora cê precisa viver, e viver por ela tudo o que ela não conseguiu.

𝄞 Ana se emociona; seus olhos brilham, cheios de lágrimas. Ela respira fundo, encara a avó com determinação e abre um pequeno sorriso.

ANA (convicta): A senhora tá certa. Minha mãe tá viva… dentro de mim!

𝄞 Um flashback invade os pensamentos de Ana, trazendo a lembrança do último desejo de sua mãe antes de falecer devido a um aneurisma.

FLASHBACK

𝄞 Heloísa, mãe de Ana, está deitada em uma cama de hospital. Seu olhar é vazio, mas transmite força. Ana chora ao seu lado, segurando sua mão.

HELOÍSA: Filha… Eu sei que tá chegando minha hora.

ANA (chorando): Não, mãe! Para com isso, a senhora não vai embora!

HELOÍSA: Escuta aqui, Ana. Quem tem que ser forte agora é você. Sua voz vai falar por mim e por muita gente, minha menina. Não deixe isso aqui te parar. Isso não é o fim, entendeu? Eu sempre vou tá com você, nem que seja só aqui dentro (aponta para o coração de Ana). Promete que vai cuidar da sua vó, dos seus sonhos… E vive, filha. Vive tudo que eu não consegui. Por mim.

𝄞 O som dos aparelhos para. Ana entra em desespero enquanto médicos tentam reverter a situação, mas já não há mais tempo.

FIM DO FLASHBACK

𝄞 Ana abraça a avó com força.

ANA (emocionada): É por ela que eu não vou desistir, vó.

HELENA: É assim que se fala, minha menina. Cabeça erguida, olha pra frente e segue o caminho, firme!

𝄞 Ana se despede da avó e sai para trabalhar.

CAPITAL

CENA 02 (LOJA DE ROUPAS|INTERIOR|MANHÃ)

𝄞 Luísa atende os últimos clientes do balcão com atenção.

LUÍSA: Obrigada, viu? Vai com Deus, querida.

𝄞 Após o atendimento, Luísa se senta por um instante, exausta.

LUÍSA (para si mesma): Vixi, o dia hoje vai ser daqueles. E imagina só quando o celular começar a tocar…

𝄞 O celular começa a tocar, como se confirmasse suas palavras. Ela revira os olhos e atende.

LUÍSA: Oi, mãe. A senhora me ligando pela milésima vez hoje?

RAQUEL: E tem problema nisso, menina? Eu sou sua mãe! Ou agora cê vai dizer que tá tão ocupada que num tem tempo pra mim?

LUÍSA (suspirando): Não é isso, mãe. Só que tô no trabalho, aqui é uma correria danada… Não dá pra ficar no telefone o dia inteiro.

RAQUEL (voz trêmula): Tô doente, Luísa. Cê precisa voltar pra casa… com urgência.

LUÍSA: A senhora tá sempre com alguma coisa, né? Compra um xarope, mãe. Eu não posso largar tudo aqui assim, de uma hora pra outra.

𝄞 Há um silêncio breve do outro lado da linha antes de Raquel responder.

RAQUEL (com dificuldade): Dessa vez é sério, minha filha… Faz dias que eu num consegui te contar, mas agora não dá mais pra esconder. Seu avô… Ele faleceu.

𝄞 Luísa sente um impacto tão forte que precisa se apoiar no balcão para não cair. Seus olhos imediatamente se enchem de lágrimas, e ela mal consegue se controlar enquanto tenta disfarçar diante dos clientes. Sem conseguir manter a postura, ela sai apressada e corre para o banheiro, deixando as lágrimas escorrerem livremente.

CENA 03 (GRAVADORA SOMVIVO|SALA)

𝄞 Henrique está concentrado no computador. A porta se abre, e Viviane entra.

VIVIANE: Alguma novidade importante, Henrique?

HENRIQUE: Sobre o quê, exatamente?

VIVIANE: Preciso mesmo explicar? Você sabe que a situação na gerência não anda nada bem. Precisamos movimentar a gravadora.

HENRIQUE: Até onde eu sei, a SOMVIVO vai muito bem.

VIVIANE (estala os dedos): Hello? Internamente, talvez. Mas, externamente, os patrocinadores estão saindo.

HENRIQUE: O seu problema, Viviane, é que você só pensa no seu bolso.

VIVIANE: Tá me chamando de egoísta? Só tô tentando te ajudar, Henrique! E você me trata como se eu fosse o problema. Eu sempre estive do seu lado, o tempo todo!

HENRIQUE: E agora tá sendo hipócrita? Jogando isso na minha cara por nada? Não vou descer ao seu nível. Sei bem quem tirou quem da lama aqui, mas parece que você não consegue enxergar.

𝄞 Henrique se levanta e sai da sala, deixando Viviane sozinha, atônita.

VIVIANE (para si mesma): Besta quadrada… Energúmeno! Esse estúpido não pode me deixar na mão. Viviane, reage, mulher!

𝄞 Viviane sai apressada, seguindo Henrique.

Vale dos Ventos

CENA 04 (LOJA DE CONFECÇÃO|INTERIOR)

𝄞 Ana atende uma cliente com simpatia, entregando as compras.

ANA (sorrindo): Obrigada, viu? Volte sempre!

𝄞 Assim que a cliente sai, Monique, sua chefe, se aproxima, com um sorriso no rosto.

MONIQUE (satisfeita): Tá mandando bem, Ana. Tô gostando de ver, viu?

ANA: Obrigada, dona Monique. No começo foi difícil, mas com o tempo fui pegando o jeito.

MONIQUE: É, aprendeu rápido. Mas sabe de uma coisa? Esse balcão não é lugar pra você, não.

ANA (confusa): Como assim?

MONIQUE: Te ouvi cantando Supera da Marília Mendonça mais cedo, ali no fundo. Menina, que vozeirão! Foi um show! Parabéns!

𝄞 Ana fica sem jeito, claramente envergonhada.

ANA: Ah, dona Monique, obrigada… Mas também não é pra tanto, né?

MONIQUE: É pra tanto, sim! E vou te mostrar como gostei. Quero te dar um presente.

ANA (curiosa): Presente? Peraí, a senhora não vai descontar no meu salário, né?

MONIQUE (rindo): Claro que não, boba! Fica aqui que já volto.

𝄞 Monique sai e retorna segurando uma caixa. Ao abrir, revela um violão belíssimo. Ana arregala os olhos, emocionada.

MONIQUE: Era meu, do tempo que eu fazia aula de canto. Agora ele é seu.

ANA (nervosa e feliz): Dona Monique, tem certeza? Num precisava…

MONIQUE: É de coração, Ana. Aceita logo, ou então desconto no seu salário! (rindo)

ANA (rindo): Nesse caso, eu aceito! Muito obrigada, mesmo!

MONIQUE: Não precisa agradecer. Agora, escuta aqui: a gente supera tudo nessa vida, viu? Até aquele traste que um dia me deu trabalho.

𝄞 As duas caem na gargalhada, criando um momento de descontração e afeto.

CAPITAL

CENA 05 (AP DE LUÍSA/BANHEIRO/INTERIOR)

𝄞 Luísa lava o rosto, tentando se recompor. Ao enxugar-se com a toalha, pega o celular e, hesitante, liga para a mãe. Enquanto espera a ligação ser atendida, olha para o reflexo de seu rosto choroso no espelho. Raquel atende a ligação.

LUÍSA: Tô voltando pra casa amanhã.

RAQUEL (emocionada ao telefone): Filha, me perdoa…

LUÍSA (com firmeza): Não é hora de pedir desculpas, mãe. Mas talvez seja o melhor.

𝄞 Luísa desliga o celular e encara o espelho mais uma vez, deixando as lágrimas rolarem antes de sair do banheiro.

Vale dos Ventos

CENA 06 (CASA|INTERIOR|TARDE)

𝄞 Ana chega do trabalho e sente o aroma vindo da cozinha. Sua avó, Helena, está terminando de preparar a janta.

ANA: Humm… Esse cheirinho…

HELENA: É aquela lasanha que ocê gosta! Mas ó, senta aí que tenho uma notícia pra te contar.

ANA (preocupada): Ah, vó, desse jeito a senhora me assusta. Que foi?

𝄞 Ana se senta, enquanto Helena limpa as mãos no avental e puxa a cadeira ao lado.

HELENA: A Raquel passou aqui hoje. Disse que a Luísa tá voltando.

ANA (surpresa): Sério, vó? Isso é maravilhoso!

HELENA: Minha filha, pensa naquilo que te falei. A música…

𝄞 Ana sente algo se reacender.

CENA 07 (PARADA DE ÔNIBUS|MANHÃ)

𝄞 O sol começa a nascer, iluminando as estradas. O reflexo de Luísa aparece na janela do ônibus, olhando pensativa para o caminho que se estende à sua frente. O veículo chega à parada mais próxima do centro da pequena cidade “Vale dos Ventos”. Luísa desce, ajusta a alça da mochila e avista sua mãe, Raquel, que a espera com um sorriso discreto.

LUÍSA: Faz tanto tempo que não venho aqui… Me sinto uma estranha nesse lugar.

RAQUEL (com carinho): Vai se acostumando, filha. Agora, bora pra casa?

LUÍSA: Bora.

𝄞 Raquel pega uma das malas de Luísa, dividindo o peso entre as duas. Enquanto se afastam, conversam.

CENA 08 (CASA|INTERIOR)

𝄞 Luísa entra na casa e, ao olhar ao redor, fica emocionada. Seus olhos percorrem cada detalhe do ambiente que tanto marcou sua infância.

LUÍSA: Nada mudou… Tudo isso aqui me lembra o vovô.

𝄞 Seu olhar se fixa no retrato do avô pendurado na parede, e ela suspira profundamente.

LUÍSA: Passei tanto tempo correndo atrás de uma vida diferente que esqueci do que realmente importa: a família. Tá tudo igual, mãe.

RAQUEL: Até seu quarto continua do mesmo jeitinho, filha.

LUÍSA (emocionada): A senhora pode até não acreditar, mas eu senti uma saudade danada daqui!

𝄞 Com os olhos marejados, Luísa não percebe Ana entrando pela porta.

ANA: E eu senti saudade de você, Luísa.

𝄞 Luísa se vira, surpresa, e seu rosto se ilumina ao ver a amiga. As duas se abraçam com força, sorrindo entre lágrimas.

LUÍSA (alegre): Ana! Cê nem imagina como eu senti sua falta!

ANA: Eu também, Luísa… E acho que a gente tem muita coisa pra botar em dia, não é?

𝄞 As duas se olham e riem.

RAQUEL (rindo): Concordo com a Ana!

𝄞 O ambiente é preenchido por risadas.

Algumas semanas depois…

CENA 09 (PRAÇA CENTRAL|MANHÃ)

𝄞 Ana e Luísa cantam juntas no coreto, com o som do violão preenchendo a praça. Luísa dedilha as cordas com precisão e aprofunda a voz na segunda melodia, enquanto ambas interpretam “Pássaro de Fogo” de Paula Fernandes.

LUÍSA (cantando): “Vai se entregar pra mim…”

𝄞 Raquel e Helena estão na primeira fila, emocionadas, acompanhando cada verso. Aos poucos, o público que se reúne ali fica cativado pela harmonia e entrega das duas. Quando a música termina, uma salva de palmas toma conta do ambiente. Dentro de um carro estacionado próximo, Henrique e Viviane assistem à cena com atenção.

VIVIANE (boquiaberta): Viu isso, Henrique?

HENRIQUE (convicto): Vi sim. Essas meninas têm um futuro brilhante.

VIVIANE (sorrindo): E promissor. Achamos quem precisávamos! Eu preciso delas, Henrique. Pra agora!

𝄞 Henrique faz um gesto de aprovação, e Viviane não tira os olhos do coreto, determinada. Momentos depois, a praça está quase vazia. Luísa e Ana terminam de guardar os equipamentos com a ajuda de Helena e Raquel.

RAQUEL: Já tá tudo arrumado, filhas? Bora, que ainda tem um almoço especial pra gente preparar!

ANA: Ih, dona Raquel, só de ouvir isso já me deu água na boca!

HELENA (emocionada): Antes de irmos, só quero dizer uma coisa… Foi lindo demais as ver cantando juntas outra vez. Parecia até que o tempo tinha voltado!

𝄞 Ana e Luísa sorriem emocionadas, trocando um olhar cúmplice.

LUÍSA: Acho que a gente também tava precisando disso.

𝄞 Nesse momento, Henrique e Viviane se aproximam, atraindo a atenção de todos.

VIVIANE: Não teve como não assistir, nem que fosse de longe. Parabéns às duas!

𝄞 Ana e Luísa se entreolham, surpresas.

HENRIQUE: Concordo com ela. Vocês foram incríveis. Somos de uma gravadora.

VIVIANE (interrompendo com sorriso): O que ele quer dizer é que a gente gerencia carreiras. E, olha, estamos muito interessados em vocês.

𝄞 Ana e Luísa olham para Helena e Raquel, como se buscassem orientação.

HELENA: Se tá no coração, meninas, sigam em frente. Vocês merecem voar!

VIVIANE (abrindo os braços): Tá feita a proposta. E então, o que me dizem?

𝄞 Ana e Luísa trocam olhares, ainda absorvendo o momento.

(FIM DO EPISÓDIO)

11/12/2024

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