top of page

Nada Além - Capítulo 37

Web Novela
Autor: Elias Ramos

Abertura:

𝄡Planos abertos das belas paisagens do oeste catarinense dão início ao capítulo, sobre a tela aparece o letreiro: SEMANAS DEPOIS.

Cena 01 (Tribunal / Externa)

𝄡A câmera foca na face de Luiza, que olha fixamente para a fachada externa do tribunal.

LUIZA: Hoje é o dia que vai decidir o que virá daqui pra frente...

𝄡Luiza suspira fundo, ela olha para o céu.

LUIZA: Eu não temo esse julgamento minha filha, e o que tiver que ser será, o destino sabe o que ele escreveu em nossas entrelinhas...

𝄡Luiza se recompõe e anda até a porta de entrada, ela põe a mão na maçaneta e fica receosa, no entanto adentra e segue caminho. A câmera foca na porta que se fecha.

Cena 02 (Tribunal / Salão de Julgamento / Interna)

𝄡Todos já estão assentados em seus locais e levantam-se quando o juiz adentra o recinto. Em outro take já é mostrado o início do julgamento.

PROMOTORA: Esse é o caso do estado contra Luiza Miranda. Acusada de interromper precocemente a vida de Maria Clara Miranda de Souza Lemos, sua filha que estava em coma após um acidente automobilístico, cometendo o crime de eutanásia que pode resultar na perda de sua licença para a prática de medicina e detenção em regime fechado de três a seis anos.

𝄡O juíz bate o malhete.

JUÍZ: A sessão está em aberto.

Cena 03 (Tribunal / Sala de Testemunhas)

𝄡Algumas das testemunhas estão aguardando serem chamadas para depor, dentre elas Théo, Daniela, Adriano, mas a câmera foca especificamente em Helena que está mais afastada enquanto fala ao telefone com seu advogado, ela aparenta estar receosa.

HELENA: Doutor, você tem certeza disso?

ADVOGADO (Voz) Sim senhora Helena, se a senhora prestar depoimento e ao final do julgamento a ré for condenada você pode ser indiciada como cúmplice por influenciamento. A defesa da Luiza pode usar o argumento de que foi você que a influenciou a desligar os aparelhos aproveitando da fragilidade mental dela naquele momento.

HELENA: Então quem pode ser presa sou eu?

𝄡A câmera em Helena, que fica tensa.

Cena 04 (Tribunal / Salão de Julgamento / Interna)

𝄡Luiza está sentada para depor.

PROMOTORA: Senhora Luiza, como se declara?

𝄡Luiza permanece em silêncio.

PROMOTORA: Luiza?

𝄡Luiza segue sem responder.

JUÍZ: Senhora Luiza, responda.

𝄡A câmera foca na face de Luiza.

LUIZA: Eu abro mão do meu depoimento.

JUÍZ: Como?

LUIZA: Eu abro mão, dispenso. Afinal os dados médicos e provas já estão todos com vocês. A minha filha morreu, de que vale a tortura?

PROMOTORA: Então permite interpretarmos seu silêncio como confissão de culpa?

𝄡A câmera foca em Luiza, que não diz se quer uma palavra.

PROMOTORA: Testemunha dispensada.

𝄡Luiza levanta-se e retorna ao seu lugar, a câmera alterna entre todos os presentes.

Cena 05 (Tribunal / Interna)

𝄡O médico de Maria Clara está sendo interrogado pelo advogado de Luiza.

ADVOGADO: O senhor foi o médico da Maria Clara desde o dia que ela entrou após o acidente, correto?

MÉDICO: Sim.

ADVOGADO: E o quadro da paciente era praticamente irreversível?

MÉDICO: Exatamente.

ADVOGADO: Você acredita que ela voltaria a vida?

MÉDICO: Não, os órgãos dela iriam começar a parar até ela falecer completamente.

ADVOGADO: Sem mais perguntas.

𝄡Em outro take mostra o médico sendo interrogado pela promotora de acusação.

PROMOTORA: Você sabe que sua licença médica está em jogo caso falte com a verdade, não é mesmo?

ADVOGADO: Protesto. Tentativa de coação de testemunha de maneira submoral!

JUIZ: Protesto deferido.

PROMOTORA: Ok… então, a Maria Clara acordou meses depois de permanecer em coma não é mesmo?

MÉDICO: Sim, é um fenômeno que acreditamos ser uma melhora súbita. Acontece frequentemente com pacientes terminais.

PROMOTORA: Mas o que impedia que isso pudesse acontecer novamente e a paciente acordar bem?

MÉDICO: Isso é raríssimo doutora, quase impossível.

PROMOTORA: QUASE? Doutor, quando se lida com uma vida não espaço para “quase”, tem que se ter certeza!

𝄡O médico começa a ficar nervoso.

PROMOTORA: Quais eram as chances da Maria Clara acordar?

MÉDICO: Eram baixas. Cerca de menos de 5%.

PROMOTORA: Ou seja, ainda haviam chances, ela não era uma paciente terminal, ela teve a vida interrompida.

MÉDICO: Não foi isso que eu…

PROMOTORA: Testemunha dispensada.

Cena 06 (Sala de Testemunhas / Interna)

𝄡Helena está receosa andando de um lado ao outro, pensando no que o advogado lhe disse.

HELENA: Não… eu não posso ser presa!

𝄡Helena está concentrada em seus pensamentos e se assusta quando o policial adentra a sala.

POLICIAL: Théo de Souza Lemos, sua vez de depor.

𝄡Théo que estava sentado ao lado de Adriano e suas irmãs levanta-se e segue o polícial.

Cena 07 (Tribunal / Interna)

𝄡Théo já está posicionado em seu lugar.

THÉO: Hoje eu estou aqui para falar sobre a minha irmã Maria Clara que infelizmente não está mais junto de nós, mas também estou aqui para falar sobre a Luiza que é a maior vítima dessa história, que mesmo sofrendo a cada dia pela morte da filha está aqui tendo que passar por isso tudo. Mas hoje eu serei a voz dela e eu não estou sozinho...

𝄡A câmera corta para o telão, um vídeo começa a passar, na tela aparece uma jovem de aproximadamente 15 anos.

AMANDA: Eu me chamo Amanda, tenho 15 anos e sofria de complicações renais, graças a Maria Clara eu recebi os rins e agora posso ter uma vida normal. Eu ficava muito mal quando eu via minha mãe chorando escondido, mas agora ela está radiante como nunca. Eu sinto muito pela sua perda dona Luiza e espero conhecê-la um dia, mas a sua filha foi o anjo e o maior milagre que eu tive em minha vida.

𝄡Um homem aparece na tela.

ANTONIO: Eu me chamo Antônio, tenho 43 anos, mas estou aqui para falar em nome do meu filho Arthur, ele conseguiu vencer a leucemia graças ao transplante de medula óssea. A senhora é um anjo dona Luiza, e a Maria Clara foi a luz da vida do meu pequeno.

𝄡Em takes consecutivos são mostrados as pessoas que conseguiram se salvar devido a doação de órgãos de Maria Clara. Luiza fica cada vez mais emocionada, o vídeo se encerra e a câmera foca em Théo.

THÉO: E esse anjo chamado Maria Clara, que eu me orgulho em dizer que era minha irmã, hoje é o motivo de eu estar vivo. E eu serei eternamente grato a Luiza e quero que saiba que você nunca estará só, estaremos aqui por você.

𝄡Em uma sequência de planos fechados no tribunal, mostra-se Adriano, Júlia, Carine, Daniela, Bianca, Rodrigo e demais enfermeiras que acompanharam o caso dando seus depoimentos.

JUÍZ: E agora chamamos a última testemunha, senhora Helena Silveira.

𝄡Todos aguardam por Helena, o policial retorna.

POLICIAL: Não encontramos a testemunha.

JUÍZ: Como não encontraram?

POLICIAL: A senhora Helena foi embora.

𝄡A câmera foca na face de todos que ficam indignados.

Cena 08 (Ruas / Externa)

𝄡Alguns veículos passam pela rua, dentre eles o carro de Helena. A câmera corta para um take interno do veículo onde Helena dirige em alta velocidade, ela aparenta estar desconcertada.

HELENA (Nervosa): Eu não posso…

𝄡Helena segue com seu veículo, de um take externo vemos a mulher partir em direção ao horizonte.

Cena 09 (Tribunal / Interna)

𝄡A audiência está em recesso. Os presentes no local estão indignados com a postura de Helena.

CARINE: Ela foi longe demais agora.

THÉO: Eu tenho vergonha dela ser minha mãe. VERGONHA!

JÚLIA: Ela já deixou de ser minha “mãe” há muito tempo...

DANIELA: Me desculpem, eu sei que ela é a mãe de vocês mas ela é uma das pessoas mais traiçoeiras que há nesse mundo!

BIANCA: E a Luiza? O julgamento está quase voltando.

RODRIGO: Ela foi lá fora tomar um ar…

Cena 10 (Tribunal / Externa)

𝄡Luiza está sentada, inexpressiva, apenas refletindo, “Eu Sei - Papas da Língua” começa tocar ao fundo enquanto Adriano se aproxima.

ADRIANO: Posso?

LUIZA: Claro.

𝄡Adriano se assenta ao lado de Luiza.

ADRIANO: Luiza, me permite uma pergunta?

LUIZA: Eu até já imagino sobre o que é…

ADRIANO: Por que você ficou em silêncio? Por que não se defendeu?

LUIZA: E como eu faria isso? Como eu teria coragem para usar de todos os meus argumentos para justificar a morte da minha filha? Como eu iria torcer para que a morte de minha filha seja armazenada em um caso perdido. Eu não consigo…

𝄡Adriano consola Luiza, Bianca se aproxima dos dois.

BIANCA: Luiza… está na hora do veredito.

𝄡Luiza suspira fundo e adentra acompanhada de Bianca e Adriano.

Cena 11 (Tribunal / Interna)

𝄡Em câmera lenta mostra-se cada um dos personagens se assentando em seus devidos lugares. Luiza se prepara para receber a sentença, o advogado de Luiza e a promotora se colocam em suas posições e o juíz adentra o local, todos levantam-se.

JUÍZ: Bom, vamos a leitura do veredito.

𝄡A câmera alterna entre as faces de todos.

JUÍZ: Após finalizar a sessão e ouvir todos os depoimentos, analisando é claro a questão médica envolvida no estado da paciente, esse tribunal compreende que sim houve a prática da eutanásia visto que por menores que sejam a paciente ainda tinha alguma chance. Mas também entendemos que a ré Luiza Miranda não agiu de má fé, mas sua licença médica está suspensa.

𝄡O plano de câmera enfatiza a expressão de Luiza.

JUÍZ: E na análise final, a ré é declarada…

𝄡Instrumental de tensão, a câmera alterna por todos os presentes.

JUÍZ: CULPADA!

𝄡Todos os personagens que compunham a platéia se levantam em um gesto de indignação, um plano aberto do tribunal demonstra uma visão geral do local que vai desfocando e focando somente em Luiza, uma única lágrima escorre dos olhos da mulher.

UM FEIXE DE LUZES BRANCAS SOBREPÕE-SE NA TELA, A IMAGEM ESCURECE LENTAMENTE.

Encerramento:

07/10/2021

©️ GS Literatura

© Copyright 2011-2026 GS.

bottom of page