top of page

Feridas da Terra

 

2005 - Vila de Sucupira - Anapu - Pará 

 

A escuridão se faz presente. Ouve-se ao longe os cantos de pássaros nativos da região amazônica, começamos com uma mulher ainda desconhecida caminhando ao redor de um angelim-vermelho a espécie de árvore mais alta daquele bioma. Ele toca na árvore.

 

Cena 01 (Casa de Dorothy/Quintal/Manhã)

 

VOZ (Mulher): Porque a machucam? Porque não enxergam o seu valor? Quando perceberem que você existe, vive e segue sobrevivendo, será tarde demais.

 

A mulher se vira em nossa direção, revelando ser Dorothy, que reflete solitária, no quintal de sua casa.

 

DOROTHY: Procuram tantas soluções para curar as mazelas do mundo e esquecem do seu bem mais precioso. A morte disso aqui, é o fim da nossa vida.

 

Nos afastamos dali.

 

Cena 02 (Escola/Interior/Manhã)

 

Observa-se uma pequena escola, à beira de uma estrada de terra. Adentramos uma sala e em destaque está Cidalina, Dorothy adentra a seguir com alguns livros doados conseguidos por ela.

 

CIDALINA: Dot, eu fico tão agradecida em ter tu aqui. Ajudando a comunidade... Ajudando toda essa gente, se não fosse a tua ajuda aqui, não sei o que seria de Sucupira.  

 

DOROTHY: Cada uma de nós temos um trabalho a fazer em vida, fazendo o bem, ajudando o próximo. E eu vejo vocês, a nossa fauna e flora, como meus filhos, como alguém vulnerável que precisa de proteção.

 

CIDALINA: Olha só essa escola que construimos... Graças a tua luta irmã, essas crianças sabem ler!

 

DOROTHY: Mas ainda temos muito o que fazer, não muito distante daqui tem alguém violando os direitos de vocês, mandando e desmandando nessa região.

 

CIDALINA: Tudo isso vai mudar, eu tenho fé em Deus. Já fomos pra Brasília, temos pressionado o governo, vamos conseguindo o que precisamos aos poucos.

 

Apesar do otimismo de Cidalina, Dorothy parece desacreditada com o futuro.

 

DOROTHY (Triste): É pouco, para o tanto que estão destruindo, é muito pouco.

 

Dorothy suspira entristecida.

 

CIDALINA: Pensa pelo lado bom, aquele teu projeto de exploração sustentável tá indo pra frente.

 

DOROTHY (Sorrindo): Falando nisso, preciso te levar lá. Tô cheia de ideias na cabeça pra levar aquele espaço de exemplo para o mundo!

 

Dorothy sorri. Ouve-se um carro se aproximando da escola, elas vão em direção ao veículo no lado de fora.

 

Cena 03 (Exterior/Escola/Manhã)

 

Dois homens ao que parecem ser, jovens jornalistas, cumprimentam a ativista.

 

HOMEM: Bom dia, senhora Dorothy Stang. Foi difícil vir ao seu encontro viu? 

 

DOROTHY: Eu imagino. Vieram da capital? Se for é realmente uma longa viagem.

 

HOMEM: Sim, sim. A gente veio de Belém pois chegamos nesta madrugada de São Paulo, viemos saber mais do projeto de desenvolvimento sustentável que está implantando na região. Ficamos entusiasmados com tudo isso.

 

DOROTHY: Que maravilha. Vamos nos sentar, eu conto tudo com todo prazer. As pessoas precisam conhecer o projeto.

 

Dorothy e os dois jornalistas conversam debaixo de uma árvore. Uma câmera é posicionada e inicia-se a entrevista.

 

HOMEM: No que consiste o seu projeto?

 

DOROTHY: Dignidade. Ocupar uma terra com um consumo consciente, um cultivo com consciência de que tudo isso que está ao nosso redor é um grande ser vivo. Nosso projeto é um modelo de exploração sustentável para agricultores familiares, povos tradicionais que vivem da terra e que precisam dela para sua subsistência.

 

HOMEM: E como está o andamento deste projeto?

 

DOROTHY: Por enquanto, lento, há muitas burocracias e inimigos infelizmente. A área que planejo demarcar para ele está desmatada para criação de bois, de um latifundiário que se quer mora nessa cidade. Isso não está certo, esta terra precisa ser ocupada por quem precisa, gerando alimentos para quem necessita e dando moradia digna a eles.

 

HOMEM: E qual o benefício disso pra você? Não achas que é uma luta sem fim? 

 

Dorothy olha para a câmera.

 

DOROTHY: Não, eu não acho. Se não for eu, o que será dessas pessoas daqui? Não estou salvando o mundo, mas estou contribuindo para isso. Hoje em 2005 quase não se há uma mobilização generalizada para o fim do aquecimento global, acham que isso está distante e estão empurrando com a barriga. Meus inimigos acham que estou louca e tô fazendo alarde.

 

Dorothy abaixa a cabeça pensativa e olha para a câmera novamente.

 

DOROTHY: Mas escutem o que eu estou dizendo enquanto há tempo. Em 20 anos se continuar neste ritmo o nosso planeta entrará em ebulição global e os reflexos disso tudo serão catastróficos. E não é só quem tá lá embaixo que vai ser afetado, todos irão sofrer.

 

Dorothy fica séria.

 

Cena 04 (Casa de Cidalina/Sala/Interior)

 

A professora aparece se aproximando da sua casa de barro, ela vê a mesma com a porta aberta e corre em direção a entrada, derrepente, vê sua sala bagunçada e saqueada. 

 

CIDALINA (Assustada): Meu Deus. O que é isso? Alonso, meu filho. O que aconteceu, cadê tu menino?

 

Cidalina procura pelo filho em desespero no quarto, e o vê embaixo da cama assustado. Ela tira o menino dali.

 

CIDALINA (Nervosa): Filho, o que aconteceu. O que houve contigo? Me diz o que aconteceu aqui.

 

ALONSO (Choroso): Eles destruiram tudo e disseram que se eu falasse quem foi eles iriam me matar. Eu quero ir embora daqui mãe... Eu não quero mais isso.

 

Cidalina segura as mãos no rosto filho e olha fixamente para o mesmo.

 

CIDALINA (Séria): Meu filho olha pra mim, você precisa me dizer quem foi que fez isso, eu tenho certeza que pelo menos o rosto você viu. Você precisa Alonso.

 

ALONSO (Chorando): Eu não consigo mãe, eu tô com medo... Não me obriga a fazer isso, por favor. Por favor.

 

Cidalina abraça o menino.

 

CIDALINA (Chorosa): Oh meu Deus, que tormento.

 

Cena 05 (Fazenda/Escritório/Manhã)

 

Um homem aparece ascendendo um cigarro, enquanto está sentado em sua poltrona com os pés em cima da mesa. Um homem adentra o local.

 

SANDRO: Senhor? Já foi executado.

 

JARDEL: E o menino fez o quê com ele?

 

SANDRO: Deixei o menino lá, mas a casa ficou do avesso. A mãe dele vai se assustar quando chegar.

 

JARDEL: É bom pra aquela velha gringa ficar de 'zoio' bem aberto. Eu posso fazer bem pior do que bagunçar um barraco de barro. Enquanto ela brinca de ser ativista com aqueles amiguinhos do MST dela, eu tô perdendo dinheiro.

 

Jardel bate na mesa, raivoso.

 

JARDEL: Que merda.

 

SANDRO: E a polícia? A policia não pode fazer nada?

 

JARDEL: Não, não. Eu paguei pra eles ficarem longe daqui e isso já é suficiente, eles não vão interferir em nada. Eu posso fazer isso sozinho e eu quero fazer isso sozinho.

 

Jardel se levanta e anda pensativo.

 

SANDRO: Então pra quê agonia senhor? Já tá tudo ganho.

 

JARDEL: Não tá não. Essa maldito projeto de desenvolvimento sei lá o quê, tá próximo demais das minhas terras, eu ia expandir naquela direção justamente porquê as vendas da cabeça de gado tão rendendo bem. Finalmente tá entrando grana.

 

SANDRO: O senhor precisa fazer alguma coisa.

 

JARDEL: A velha vai se aquietar, eu tenho certeza. O pior de tudo, é que todo mundo conhece ela, então é melhor ficar na encolha por enquanto. Mas fica de olho naquele projeto lá, vê a movimentação.

 

SANDRO: Vou dar uma olhada por lá.

 

Sandro se afasta. Jardel permanece pensativo.

 

Cena 06 (Projeto Esperança/Exterior/Manhã)

 

Observamos o projeto de Dorothy a ser executado pela mesma. Projeto do Desenvolvimento Sustentável Esperança, com a implantação do plantio consciente, irrigação com água da chuva, energia sustentável, moradia digna para os trabalhadores rurais e povos tradicionais. Tudo isso funcionando na mais perfeita sintonia, sem interferir no bioma e respeitando a floresta. Dorothy se aproxima da vila de casas.

 

DOROTHY: Fico feliz que já tenham se acomodado. Não se acanhem caso tenha alguma dúvida sobre como funciona tudo isso, as oficinas de aprendizado servirão justamente para isso.

 

MULHER: Graças a Deus irmã Dorothy, a gente conseguiu esse tantinho de terra depois de tanta luta e sofrimento. Teve muito sangue derramado pra isso.

 

DOROTHY: Não há coisa melhor do que este espaço. Não há queimada, nem poluição desenfreada, só há moradia para quem precisa e uma exploração respeitosa e exemplar.

 

Dorothy chama a atenção dos moradores que estavam ali na frente com palmas.

 

DOROTHY: Vamos levar este exemplo para toda a população que reside na Amazônia rural. Um projeto feito por todos nós, amazônidas, que conhecem este lugar e que foi feito totalmente para quem precisa desta terra para sobreviver.

 

Ouve-se uma salva de palmas. Cidalina aparece correndo e vindo em direção a amiga nervosa, Dorothy se assusta.

 

DOROTHY: Que isso, Cida? O que ouve minha amiga? Tá tudo bem?

 

CIDALINA (Nervosa): Eles destruiram minha casa, Dot. Bagunçaram tudo, assustaram o meu menino, eu tenho certeza que foi o fazendeiro dessas terras aqui ao lado. 

 

DOROTHY (Séria): Eles fizeram algo contigo?

 

CIDALINA: Foi só uma ameaça. Mas eles tão vindo com tudo pra cima da gente.

 

Dorothy fica pensativa. Sandro aparece surgindo à espreita e ouvindo tudo por trás das casas.

 

DOROTHY: Não vamos nos calar. Conheço dois rapazes que podem me ajudar...

 

Dorothy começa a falar alto e olha para os moradores.

 

DOROTHY: Venham comigo bem aventurados. Se ele acha que nos ameaçar vai fazer interromper o nosso projeto, ele está muito enganado. Não vamos abaixar a cabeça e deixar acontecer o mesmo o que aconteceu com nossos amigos de Eldorado. Não vamos!

 

Todos ali concordam entre si e começam a reproduzir frases de força para Dorothy, que sorri.

 

Cena 07 (Fazenda/Porteira/Tarde)

 

De imediato observa-se diversos grupos de pessoas do movimento sem-terra se estabelecendo na frente da entrada da Fazenda de Jardel, obstruindo a entrada de caminhões. Dorothy lidera.

 

DOROTHY: Vamos companheiros, se espalhem. Não tenham medo, Deus está conosco. Estamos lutando por dignidade.

 

Um motorista de um caminhão desce para ver a situação.

 

MOTORISTA: O que tá acontecendo? Vocês estão fechando a passagem, eu estou com carga viva aqui para entregar para o patrão.

 

DOROTHY: É um movimento pacífico, eu sinto muito mais ninguém entra aqui sem antes o seu patrão nos dar as devidas satisfações. Chega de aguentar tanto sofrimento calado, chega... Nós não merecemos mais isso.

 

Os dois jornalistas que estavam alojados na cidade se aproximam dali após serem chamados por Dorothy.

 

HOMEM: Dona Dorothy, ficamos feliz com a sua denuncia. Será algo muito importante para toda mídia tomar conhecimento.

 

DOROTHY: Pois então liga essa câmera, chega de teme-los, as pessoas de fora precisam saber do descaso que acontece aqui.

 

CIDALINA: Dot, cuidado. Tú tá mexendo com gente perigosa.

 

DOROTHY: Se eu não fizer isso, ninguém vai fazer Cida. Cadê a polícia nessas horas?

 

O jornalista liga a câmera, Dorothy olha fixamente.

 

DOROTHY: Pra vocês que estão ai, no conforto dos lares das grandes cidades, não imaginam se quer o tormento que é sobreviver dia após dia numa realidade como esta agora. Pessoas estão morrendo por lutarem por seus direitos há anos e ninguém faz nada.

 

Dorothy se revolta.

 

DOROTHY: Hoje uma amiga foi ameaçada por um fazendeiro daqui dessa fazenda onde nós estamos. Amanhã ela pode ser morta, depois pode ser eu, como também pode qualquer outra pessoa daqui. E ninguém vai fazer nada, pois o Estado que deveria ajudar seus cidadãos é conivente e apoia esses abusos. 

 

Cidalina se aflinge.

 

DOROTHY: Todos nós sabemos disso, mas ninguém tem coragem de falar. A policia é comprada, a prefeitura é comprada, o governo é comprado, tudo é comprado por que quem tem dinheiro neste país manda e desmanda em tudo, até no destino da vida das pessoas.

 

Dorothy se emociona.

 

DOROTHY: E nós, que desejamos uma vida melhor e a proteção do nosso bioma, estamos jogados a própria sorte, esperando pela morte ou por mais uma bala perdida na cabeça, que vai ser tratada como mais um caso isolado pela polícia.

 

A transmissão termina. Dorothy cai em lágrimas.

 

Cena 08 (Fazenda/Interior/Escritório)

 

Jardel aparece dentro do escritório sem saber da situação até ser abordado por Sandro.

 

SANDRO: Senhor, tem algo sério acontecendo.

 

JARDEL: Tem mesmo, cadê a carga que eu encomendei pra esta tarde? O que ouve, eu paguei caro por isso.

 

SANDRO: São eles senhor, o pessoal desocupado lá daquela velha gringa tá fechando a porteira da sua fazenda.

 

JARDEL: Como é que é?

 

SANDRO: Eles estão desconfiando que foi você que atacou a casa da forasteira alojada no seu terreno.

 

JARDEL: Malditos. (Pegando a espingarda): Eu não vou ter dó, nem piedade dessa vez.

 

SANDRO (Segurando o homem): Não faz isso, senhor. A imprensa está ai e a velha tá completamente fora de si.

 

Jardel pensa, ele larga a arma e sai dali rápido.

 

Cena 09 (Fazenda/Exterior/Noite)

 

Jardel se aproxima furioso do local onde estão os manifestantes. Ele chuta uma barraca que estava ali na frente 

 

JARDEL (Grita): Quem é que tá organizando essa presepada toda aqui, hein? Quem é o cabeça disso?

 

DOROTHY: Ela está na sua frente. (Séria)

 

JARDEL: Você e seu bando estão empatando a entrada de minha fazenda que é uma propriedade privada. Irei chamar as autoridades.

 

DOROTHY: Eu não me importo, não me importo mais. Eu não tenho mais nada a perder.

 

JARDEL: É bom você ficar bem longe da minha fazenda ou eu não respondo por mim, você não vai gostar nada de saber da minha força.

 

DOROTHY: Vai me matar? Como fez com os outros três últimos mortos do MST de bala perdida? São tantas coincidências, e a polícia, tão boazinha... Não descobriu nada!

 

JARDEL: Eu falei que você não iria gostar nada, nada de saber da minha força.

 

DOROTHY: Eu não preciso saber de nada mais. (Se afastando e erguendo os braços): Tô aqui, não é isso que você queria? Essas pessoas aqui são meu alicerce, eu não tenho mais medo.

 

Dorothy se distância do homem. Jardel permanece atônito, nos afastamos dali. O breu toca conta da cena.

 

Amanhece.

 

Cena 10 (Fazenda de Herculano/Exterior/Manhã)

 

Nos aproximamos do acampamento. Dorothy aparece com Cidalina enquanto esquentam o café numa fogueira improvisada. Um radinho de pilha ecoa a música "Sentinela - Milton Nascimento".

 

CIDALINA: Você foi muito corajosa ontem viu minha amiga. Você representou a todos nós, da maneira que sempre sonhamos, mas que nunca tivemos coragem.

 

DOROTHY: Ninguém faria isso, infelizmente a população de Anapu vive com medo, com receio, pois não tem ninguém para protegê-los. Quem irá ligar para uma cidade minúscula do interior do Pará no meio da Amazônia? Todo mundo finge que não existimos.

 

CIDALINA: A sua reportagem vai passar na TV hoje minha amiga. Quem sabe isso muda um pouco o rumo das coisas.

 

DOROTHY: Não custa nada tentar. Não é possível que Deus deixe uma terra tão rica e abençoada deixada à própria sorte. Talvez eu não veja este lugar brilhar, mas você irá ver. Eu tenho fé.

 

Dorothy segura as mãos de Cidalina.

 

CIDALINA: Não diz isso. Nós ainda iremos ver o sucesso disso juntas. 

 

DOROTHY: Não vou me enganar, Cida. É o que eu sempre digo minha amiga, nada causa mais horror à ordem do que mulheres que lutam e sonham.

 

CIDALINA (Chorosa): Eu vou lutar pra mudar essa realidade, Dot. Eu prometo pra você. Ninguém vai fazer mal nenhum a uma mulher tão boa feito você.

 

Dorothy e Cidalina se abraçam.  

 

CIDALINA: Eu tenho muito, muito orgulho de você.

 

DOROTHY: Eu tenho a sorte de te ter como amiga. (Sorri)

 

Elas permanecem abraçadas emocionadas.

 

Cena 11 (Fazenda/Inteiror/Manhã)

 

Da Fazenda, Jardel e Sandro observam o acampamento, e vê Dorothy saindo dali indo direção a sua igreja.

 

JARDEL (Frio): Vai lá ela. Tranquila... E o principal, sozinha.

 

Ele tira um envelope em dinheiro e entrega para Sandro.

 

JARDEL: Tu sabes o que fazer. Não é nada diferente do que você já fez várias vezes. Leva alguém contigo e vai de moto. Ela tá indo pra igreja, a estrada vai estar vazia, eu te asseguro.

 

Sandro pega o envelope.

 

SANDRO: Ela é diferente, senhor. (Receoso)

 

JARDEL: Você sabe que não é. Ela é só mais um deles e vai terminar do mesmo jeito daqueles que ameaçaram nossos negócios.

 

Sandro assente e se afasta. 

 

JARDEL (Pensativo): Eles não aprendem nunca. Quem não tem dinheiro, não vence essa batalha.

 

Nos afastamos.

 

Cena 12 (Estrada de Terra/Manhã)

 

Dorothy solitária aparece caminhando em direção a igreja como vai todos os sábados, acompanhada apenas de sua bíblia em suas mãos. Naquele dia, a rotineira atmosfera silenciosa que a acompanhara todos os dias, juntamente com o canto natural dos pássaros nativos é interrompido por um estrindente som de uma motocicleta antiga a se aproximar-se por trás da ativista. Ela se vira, e vê dois homens encapuzados descerem da moto e apontarem uma arma para si.

 

DOROTHY: Meu Deus. (Assustada)

 

SANDRO: Vira de costas, anda que eu tô mandando.

 

DOROTHY: Calma. Não precisa disso.

 

SANDRO: Anda vai, não me faz fazer isso olhando pra ti.

 

Dorothy se vira lentamente. Entretanto, o rapaz parece não ter coragem para atirar. Dorothy abre sua bíblia.

 

DOROTHY (Lendo): "Bem aventurados os que tem fome e sede de justiça, porque são fartos. Bem aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus"

 

SANDRO: Mostra as mãos. Tá armada?

 

Dorothy se vira e ergue a sua biblia na direção do homem, que a olha fixamente.

 

DOROTHY (Chorosa): Eis, eis a minha arma.

 

Ouve-se os tiros, mas não se vê a cena, apenas percebe-se os pássaros saindo assustados das copas das árvores a seguirem para longe dali, após os ensurdecedores barulhos disparados cinco vezes, a sangue frio e a queima roupa, contra a idosa que morre ali. Uma atmosfera melancólica toma conta da cena, seguido do breu completo.

 

* "Em memória à Dorothy Stang, assassinada em 12 de Fevereiro de 2005. Seu nome associa-se aos de tantos outros homens e mulheres que morreram e ainda morrem sem ter seus direitos respeitados. Depois de sucessivos e polêmicos julgamentos, demorou cerca de 14 anos para que o mandante e o assassino fossem de fatos presos, um caso que infelizmente não foi exceção, é regra e é o retrato fiel da violência e impunidade que assolam a Amazônia. O projeto de Dorothy, infelizmente encontra-se atualmente em abandono, por falta de assistência e segurança é constantemente invadido por fazendeiros, mas ainda restam moradores ali e a luta continua."

 

FIM

 

10/03/2024

 

️ GS Literatura.

© Copyright 2011-2026 GS.

bottom of page